São Raimundo Nonato - Sempre tive cá para mim que pinturas rupestres fossem como aqueles desenhos que ornam paredes das casas onde moram crianças pequenas. Bonequinhos rústicos, modelo palito, cinco traços e uma bolinha, mais básico impossível. Isso até ficar cara a cara com os murais do Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, que exibe a maior concentração de sítios arqueológicos do mundo. E descobrir que "rabiscos" como esses podem emocionar profundamente.
Como tatuagens nos delicados arenitos, mais de 40 mil registros eternizaram seu tempo e suas crenças. Nos 1.334 sítios arqueológicos catalogados hoje na área do parque nacional - "a cada dia aparecem mais", afirma Niéde Guidon, diretora da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham) -, perpetuam-se representações de caça, rituais, sexo e outros desenhos com idades entre 6 mil e 18 mil anos. Espantoso pensar que atravessaram séculos, civilizações e a implacável ação do tempo. A maior parte, quase intactos. O que confere ao lugar o título mais que merecido de Patrimônio Cultural da Unesco.
Não bastassem as artes com óxido de ferro e gordura animal em incontáveis rochas, impressionam os cânions, paredões e falésias escarpados. Paisagens dramáticas. As formações, que há alguns milhões de anos eram fundo de mar e depois de rio, foram esculpidas pelo vento e o tempo. A Pedra Furada, o maior símbolo do parque, é uma prova disso.

Estrutura
Na categoria "excepcional" uma atração se sobressai. O Museu do Homem Americano reluz como uma joia na caatinga. Seu tesouro está nas vitrines, que revelam quanto o passado foi generoso com a região.
Três a quatro dias é o período ideal. O suficiente para o olhar de um simples turista ficar treinado a destrinchar os desenhos mais complexos e até mesmo a identificar estilo e período a que pertencem. O que só se consegue, logicamente, na companhia de um guia credenciado (em média, R$ 100 a diária para grupo, de carro ou de moto), e não inclui acesso ao parque (R$ 12,50). A entrada principal está próxima ao vilarejo do Sítio do Mocó, a 20 quilômetros de São Raimundo Nonato, mas ali há apenas uma estrutura básica de camping.
A oportunidade de compreender as rochas, suas formações e variações faz do lugar uma Disneylândia para geólogos. Mas não é preciso ser estudioso para se apaixonar pela Serra da Capivara. Ali, a caatinga revela o mistério de suas árvores, que mudam do cinza-quase-morto para o verde-cheio-de-flores com a chuva, de janeiro a abril. E o cancã, um dos vários pássaros que habitam essas paradas, acompanha sua jornada com um canto característico.
Aqui não há cachoeiras, rios caudalosos ou poço azul cristalino. O calor é implacável e seus melhores amigos na caminhada serão boné, água e barrinhas de cereal. O que a Serra da Capivara propicia está mais para uma viagem visceral às próprias origens, que revela um passado distante e, ao mesmo tempo, tão presente.

Imagem ilustrativa da imagem Relíquias da Serra da Capivara
| Foto: Tiago Queiroz /Estadão Conteúdo
A Toca do Boqueirão da Pedra Furada exibe uma incrível sequência de desenhos ao longo de 70 metros de extensão



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