Receita para espantar a dor
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 05 de fevereiro de 1999
Francelino França 
Quatro atores mascarados de ingênuos transitam duas vezes por semana pelos corredores da ala pediátrica do Hospital Universitário do Norte do Paraná (HU). Quebram a rotina caracterizados de palhaços. Com gestos infinitos, os clowns resgatam a alegria de viver das crianças doentes.
Sonho é uma coisa que fica dentro do meu travesseiroEmília Miyazaki, Marcos Martins, Maria Melo e Mary Raquel Balekian são atores de teatro que se dedicam à linguagem clown, atuando dentro do Projeto Cultural Plantão Sorriso. Especializados em besteirologia, a pessecóloga Drª Azula, o palhaço Escova, Drª Penélope e Tulipa-san, como são conhecidos no hospital, aplicam divertidos tratamentos - como a utilização de uma técnica inovadora para detectar chulé -, medem o nível de bobagens no sangue e numa questão de segundos conseguem extrair o mau humor.
A gente só é criança quando sabe inventar brincadeirasHá dois anos, eles desempenham um papel fundamental na recuperação de crianças internadas no HU. Um trabalho pioneiro e original no Paraná. Existem poucos lugares no mundo onde funcionam programas similares, como São Paulo, Paris e Wiesbaden (Alemanha), só para citar alguns, todos afiliados ao programa original Clown Care Unit, de Nova York.
O trabalho dos doutores-palhaços tem como princípio focar a atenção naquilo que existe (e resiste) de saudável na pessoa hospitalizada, estimulando as relações. Por mais grave que seja o estado clínico da criança, reside uma essência saudável, que pode ser tocada.
Fotos: Paulo WolfgangA realidade nas telas: no filme Patch Adams, em breve nos cinemas brasileiros, um estudante de medicina (Robin Williams) coloca em risco sua carreira ao defender que rir é contagiosoNos hospitais, de modo inusitado, crianças e palhaços se encontram. O mundo concreto hospitalar passa a ser envolvido por uma atmosfera lúdica. A presença de um palhaço, sem dúvida, tem um efeito surpresa. Esse procedimento médico, se assim pode ser chamado, possui a capacidade de suspender momentaneamente a lógica dos pensamentos e institui um nova dinâmica aos sentimentos vividos por pacientes, familiares e profissionais.
A presença de figuras positivas no hospital ajuda a relaxar e a diminuir o estresse da internação. Para os pais, o sorriso funciona como um indicador importante de recuperação física dos filhos. Eles passam a lidar melhor com a hospitalização das crianças e percebem uma alteração positiva na imagem da internação. Em depoimento na pediatria do Hospital Universitário, uma mãe revelou: A criança esquece que está no hospital, fica contando o dia da volta dos palhaços. É muito importante o trabalho deles.
As alterações de comportamento verificadas pelos médicos são de que as crianças prostradas ficam mais ativas e as quietas passam a se comunicar mais. Há uma visível melhora no contato com a equipe médica. A hospitalização torna-se menos ameaçadora. A elevação do astral diminui a ansiedade, antecipa a cura e a alta do paciente, diz o pediatra Fernando Bopp.
A criança enfrenta com mais força o desafio de viver. O trabalho dos doutores dá um caráter de novidade a tudo o que surge e a cada situação, independentemente do julgamento de certo e errado, bom ou ruim. Eles esperam a autorização da criança para brincar. Pedem licença para entrar no território da criança internada, sem forçar a barra.
Pesquisa realizada em São Paulo demonstrou que os pacientes que mantêm um objetivo de vida apresentam melhores índices de recuperação física, gerando uma expectativa de realização. O receio de uma cirurgia diminui quando a criança pode ser o médico e o palhaço, o paciente.
A idéia de amenizar o sofrimento da criança internada em hospitais está sendo disseminada por Hollywood através do filme Patch Adams, baseado numa história real, estrelado por Robin Williams e lançado recentemente nos Estados Unidos. O personagem de Williams põe em risco sua carreira de médico ao defender a idéia de que rir é contagioso.


