Rainha do
trabalho


Cesar AugustoSonia Forte, dona de casa há 23 anos, está dando os primeiros pessoas como microempresária, vendendo os quitutes que sempre fizeram sucesso na famíliaAs lojas tentam seduzir cada vez mais seus clientes. Fazem ofertas, baixam os preços, queimam estoques e quando a dona de casa se rende ao canto da sereia vem a desilusão: dona de casa não é nada, é cidadã de segunda classe, não tem autonomia de compra, embora tenha poder decisório no reino onde impera.
Esse dissabor já foi vivenciado pela executiva do lar Sonia Marilda Simões Forte, 23 anos na profissão de dona de casa, que não conseguiu efetivar um crediário. Ficou invisível aos olhos dos lojistas. Sonia sente na pele a desvalorização de seu trabalho, suor, dedicação, dia após dia. ‘‘A gente faz tudo e nem a própria família percebe o trabalho que é comandar uma casa’’, admite resignada.
Aquele serviço invisível, de lavar a gola da camisa, de esfregar a meia encardida, de escolher a melhor toalha para o almoço, é feito quando os filhos e o marido estão ocupados com seus afazeres e por isso não vêem esse trabalho. Enxergam, mas não reconhecem o resultado. ‘‘Num almoço caprichado só vem elogio quando tem alguma visita’’, reivindica.
Muitas donas de casa ainda vivem no reinado de Amélia, a mulher de verdade. Que atire a primeira pedra quem duvidar que ainda perdura esse reinado. Nem aposentadoria elas conquistaram. ‘‘É isso mesmo. Eu acho que nós deveríamos receber aposentadoria. A gente trabalha a vida toda e na velhice, e o que recebe?’, pondera Sonia.
À faixa, à coroa e ao cetro de rainha do lar, Sonia Forte prefere abdicar. ‘‘Sou é rainha do trabalho’’. E o segundo domingo de maio, Dia das Mães, a segunda melhor data de vendas para o comércio é ‘‘uma coisa muito mentirosa para as mães. Eu não gosto de ganhar eletrodomésticos’’. Segundo Sonia, ela prefere o reconhecimento no dia-a-dia.
Depois de mais de 20 anos de jornada de trabalho definida, mas sem salário mensal, férias, décimo terceiro, folga aos domingos, Sonia Forte está dando os primeiros passos rumo ao time das independentes. Timidamente começou a comercializar roupas e calçados há três anos. Recentemente, mudou de produto. Após o incentivo das amigas, ela resolveu colocar à venda seu famoso pão de mel. As vendas estão aumentando e o pão de mel começa a criar fama.
A batalha agora é outra: entrar no mercado de alimentos, formar uma microempresa e ‘‘crescer, crescer sempre’’. Enquanto isso, ela comanda a casa do seu trono de rainha do trabalho, lavando, cozinhando e cuidando dos filhos. E ainda, gerindo orçamento, comandando reformas, levando filho para escola, sendo secretária de luxo, correndo na feira, na cozinha e no supermercado, ainda que invisível aos olhos de muitos.

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