Radiação sob controle
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quinta-feira, 12 de setembro de 2002
Rosângela Vale<br> Reportagem Local 
A boa formação é um dos principais fatores levados em conta na hora de se entregar aos cuidados de um profissional da área médica. Os prejuízos causados por pessoas mal preparadas são notórios. Curiosamente, não existe preocupação em selecionar profissionais adequadamente preparados quando é preciso se submeter a exames de Raios-X, mesmo sabendo que a radiação é extremamente nociva à saúde.
Quem adverte é o técnico em radiologia médica Wanderley Corrêa Nascimento, um dos professores do curso de Radiodiagnóstico da Ceppar. Ele explica que a legislação exige que o técnico de Raios-X tenha 1.800 horas/aula, incluindo estágios em hospitais e pronto-socorros. Essa formação concluída em no mínimo dois anos capacita o profissional a atuar em mercados distintos, como radiologias industrial e naval e de esterilização de alimentos, apesar de 80% trabalharem na área médica. ''O que pouca gente sabe é que 70% das cirurgias são feitas com um técnico de Raios X ao lado'', informa.
Isso dá a dimensão real da responsabilidade desse profissional que, segundo Wanderley, não tem formação específica no norte do Paraná. Uma das razões é que o primeiro curso técnico de Radiodiagnóstico surgiu há três anos em Londrina. Antes era preciso ir até Curitiba ou São Paulo, o que acaba invibializando a profissionalização da área. Agora o problema é outro.
''Estão pipocando escolas que formam profissionais em um ano, um ano e meio e sem materiais adequados. Virou um comércio extremamente rentável. E o conselho de Radiologia, que fica em Curitiba, não consegue fazer uma fiscalização atuante. Se antes o técnico de Raios-X não tinha preparação nenhuma, hoje tem uma formação medíocre'', denuncia Wanderley.
Radiação maléfica As consequências são alarmantes. Wanderley dá um exemplo corriqueiro cotovelo fraturado para ilustrar alguns riscos que a população corre ao ser atendida por profissionais despreparados, sem conhecimento de anatomia. ''No cotovelo, temos tendões, ossos, articulações, musculatura, artérias, veias. Se o local for mal manipulado na hora de fazer a radiografia, os danos podem ir desde a paralisação do movimentos dos dedos e até perda da parte inferior do braço'', adverte
Outro exemplo do despreparo do técnico é o desconhecimento sobre a quantidade correta de radiação para cada parte do corpo. ''Sabe-se que, se mal dosada, a radiação não faz bem, sobretudo para a mulher, pois pode modificar geneticamente os óvulos. Um técnico bem preparado vai protegê-la adequadamente com aventais de chumbo e protetores de gônadas, além de dosar corretamente a quantidade de raios emitidos'', diz Wanderley.
Ele observa ainda que, mal dosada, a radiação é maléfica até para as pessoas que estão fora da sala de Raios X. ''Uma exposição prolongada pode acarretar feridas e até desencadear câncer de pele. Tanto que a legislação estabelece dois parâmetros para vedação interna do local: um preparado de argamassa impregnado de chumbo, chamado barita, ou lençóis de chumbo que revestem internamente as paredes'', informa.
De acordo com o técnico, todos os locais que têm esses aparelhos devem ter um laudo com assinatura de um físico. Também é obrigatório, por lei, que seja feito um levantamento radiomêtrico anual e de controle de qualidade da máquina.
Aparelhos absoletos Segundo Wanderley, os aparelhos mais modernos são extremamente sensíveis e exigem grande precisão do técnico na hora de estipular a quantidade de radiação para cada exame. Se passar da dose adequada, o exame não presta. ''Infelizmente, a tecnologia chegou para poucos'', lamenta, afirmando que aparelhos obsoletos, de 20 anos, ainda são usados na cidade. ''Essas máquinas contam com processadoras que permitem a utilização de qualquer quantidade de radição. Depois, é só compensar os exageros cometidos com o tempo de revelação e não se perde o material. Se juntar a isso um profissional mal preparado, a coisa fica feia'', alerta.
Para checar se foi utilizada mais radiação do que o necessário, basta olhar a chapa de Raios-X. ''Quando há margens brancas, apenas a área exposta foi atingida. Se estiver tudo preto, as outras partes do corpo não foram protegidas. Na Europa, isso dá até processo'', informa o técnico.
A questão se complica porque, segundo Wanderley, não existe por parte da maioria dos médicos, na hora de prescrever o exame radiológico, a preocupação em indicar locais que contam com técnicos bem formados. ''O paciente pode pedir a identificação do profissional, a carteira expedida pelo Conselho de Radiologia'', ensina. n


