Quem se importa em cair do salto?
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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
Vera Fiori<br> Agência Estado 
Há séculos, nos rendemos ao salto alto. Os atores gregos calçavam sapatos plataforma para ficarem alguns bons centímetros acima dos meros mortais. Nos séculos 15 e 16, mulheres da Espanha e da Itália usavam sapatos primorosamente ornamentados, os chapins, cuja sola podia elevá-las a mais de 10 centímetros do chão. Para que pudessem caminhar calçando o tosco modelito, as damas venezianas apoiavam-se nos criados e cada passo beirava o desastre. Mas quem se importa em cair do salto? Como disse certa vez a historiadora de calçados June Swann: É como no circo. Você pode aprender a andar em cima de qualquer coisa se praticar.
Por falar em praticar, no livro Como Andar de Salto Alto (editora Matrix), a autora Camilla Morton colunista de moda do The Times, Harpers Bazaar e Time usa uma boa dose de humor ao ensinar as novatas a terem um andar à la Marilyn Monroe. Apóie as palmas das mãos no traseiro, uma sobre cada nádega, e comece a andar pela sala. Isso vai ajudar você a perceber o movimento dos quadris e ajustar o grau de balanço desejado. Como uma instrutora de auto-escola, Camilla sugere que o treino seja feito nos corredores do supermercado. Saltos prontos, agarre-se à alça do carrinho e vamos lá! Pé direito, pé esquerdo, pé direito, pé esquerdo... Aos poucos, você vai encontrando seu ritmo natural, apesar da música chinfrim que esses lugares costumam despejar de seus alto-falantes.
Não satisfeita, ensina, em detalhes, como andar com um salto 10,5 centímetros em pisos de mármore, tapetes escorregadios, escadas rolantes e ruas com pedras. Nem pergunte se o tombo vale a pena. Reze para São Crispim, o padroeiro dos sapateiros, e lembre-se da frase da top model Veronica Webb: Um salto põe a sua bunda em um pedestal, que é onde ela sempre deveria estar. Outra especialista que ensina o bê-á-bá do salto alto é Rachael Ray, popular apresentadora de TV norte-americana, que dá dicas em seu programa de como caminhar nas alturas com elegância.
Verdade seja dita, não dá para comparar o andar de uma mulher usando tênis e moletom com outra de saia lápis com escarpins de salto agulha. Os seios se projetam, o traseiro é empinado, a perna fica alongada e, o mais importante: os homens acham muito atraente. Não apenas os homens. O estilista Tom Ford declarou que até as macacas babuínas andam na pontinha das patas quando querem seduzir os machos.
Prada, Gucci, Manolo Blahnik (designer de sapato favorito da personagem Carrie, do seriado Sex and the City), Ferragamo, Chanel, Jimmy Choo, Sérgio Rossi são alguns ícones da moda em acessórios. O investimento em um par assinado por um destes tops certamente é alto, mas, como dizia a atriz Marlene Dietrich, entre comprar três pares de sapatos medíocres e apenas um de boa qualidade, fique com a segunda opção.
O stiletto ou salto agulha, criado na Itália no pós-guerra, mexe com o imaginário masculino, sendo sinônimo de fetiche em práticas como o trampling (que consiste em pisar no parceiro) e dangling (poses balançando o sapato ou chinelo).
Até no mundo da fantasia o salto agulha fez escola. Ícones da cultura pop, as imagens ingênuas e ao mesmo tempo provocantes das pin ups tiveram origem no século 19 com o teatro de revista, quando vedetes americanas iniciaram aparições em anúncios, maços de cigarros e calendários eróticos, os quais serviam de alento aos soldados da Segunda Guerra Mundial.
Nos anos 70, com a banalização do nu feminino, elas entraram em decadência. Mas eis que em 1988, quando ninguém se lembrava mais delas, o filme Uma Cilada para Roger Rabbit reeditou a figura da pin up na pele da personagem Jessica Rabbit, uma ruiva de tirar o fôlego com seu vestido sereia, calçando luvas 7/8 e escandalosos escarpins vermelhos.
Nunca, jamais, em tempo algum, pareça
desconfortável ou reclame de um salto alto. Dê sempre a impressão de estar à vontade nas alturas
Christian Louboutin, designer de sapatos


