O que acontece com o cérebro durante o sono? Como nos comportamos enquanto estamos dormindo? Durante anos, esses questionamentos foram ignorados pela ciência. Estudiosos da área médica acreditavam que o sono era um estado de completo adormecimento no qual não havia nenhuma função cerebral. As pesquisas sobre o sono tiveram início no final da década de 70, quando se descobriu que o sono é um estado fisiológico de alterações.
‘‘O sono não é apenas o momento do dia em que não estamos em atividade. É um estado de restauração física e mental essencial para o organismo’’, define a neurologista Mônica Marcos de Souza, professora do Departamento de Clínica Médica, do Centro de Ciências da Saúde, da Universidade Estadual de Londrina. Ela explica que enquanto dormimos acontecem manifestações cerebrais diferentes daquelas que ocorrem durante o período de vigília.
Para entender essas alterações, a neurologista diz que é preciso conhecer os vários estágios do sono, que se divide em sono superficial, profundo e REM. ‘‘O sono profundo é o mais importante. Durante esse estágio, circuitos de memória são refeitos e ocorre a consolidação da memória. O que aprendemos durante o dia é assimilado durante o sono profundo. Portanto, ao contrário do que se pensava, o sono não é um estado de adormecimento’’, afirma.
Liberação de hormônios Mas, segundo Mônica Marcos, além desses circuitos, durante o sono profundo ocorre a liberação de hormônios de crescimento e de susbstâncias que atuam na área imunológica e de cicatrização. Mas se o cérebro trabalha tanto enquanto estamos dormindo, como o sono pode funcionar como estado de restauração física e mental? ‘‘É que durante o sono a parte do cérebro que nos faz pensar e gastar energia fica desativada’’, responde a médica.
De acordo com a neurologista, a importância do sono para uma boa qualidade de vida é fundamental. ‘‘Por isso, as patologias do sono devem ser encaradas como qualquer outra doença. Esses distúrbios quando não são tratados adequadamente podem levar a sérias consequências, como acidentes automobilísticos e de trabalho, além de problemas econômicos, na estrutura familiar e aumento de risco de doenças cardiovasculares, como infarto e hipertensão, aumentando o risco de morte’’, alerta a médica.
Apnéia do sono Estima-se que 30% da população mundial sofre de insônia e 6% a 9% têm problemas de depressão. Já a apnéia do sono ataca cerca de 9% dos homens e 2% das mulheres. Pesquisas realizadas pelo Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostram que as pessoas que roncam morrem entre os 60 e 70 anos porque têm oximetria, menor e mais baixo nível de saturação, o que sobrecarrega o coração.
‘‘A apnéia produz um padrão de sono fragmentado. No dia seguinte, a pessoa apresenta sintomas de irritabilidade, mau humor, sensação de fadiga e a produção fica bastante comprometida’’. Segundo a médica, esse problema é muito comum em homens acima de 45 anos, obesos e que não praticam atividades físicas. A apnéia também ataca as mulheres, principalmente depois da menopausa, mas o número é bem menor’’, afirma.
A situação é tão preocupante que a neurologista Mônica Marcos diz que todos os médicos, independentemente de sua especialidade, devem estar habilitados a reconhecer o problema e dar a conduta adequada. ‘‘No curso de Medicina da UEL, com a mudança do currículo tradicional para o PBL (Estudos Baseados em Problemas), no segundo ano os alunos aprendem sobre a fisiologia do sono e os métodos de investigação das várias patologias’’, informa a professora.
Mas os distúrbios do sono não devem envolver apenas os médicos. ‘‘Esse problema deve ser tratado de forma multiprofissional, envolvendo neurologistas, dentistas, otorrinos, fonoaudiólogos e psicólogos. A apnéia do sono, por exemplo, pode estar associada a um problema na arcada dentária. E como essa patologia está ligada à obesidade e à falta de prática esportiva, é importante também o envolvimento da nutricionista e do profissional de educação física’’, recomenda.
Sono diurno As pessoas que, por motivo de trabalho, trocam a noite pelo dia, podem se privar do sono profundo. ‘‘A qualidade do sono diurno é inferior a do noturno, e o principal problema é a claridade. À noite o cérebro produz a secreção de um hormônio chamado melatonina, que é importante para o sono. Entretanto, essa substância só é produzida em situação de total escuridão. Desta forma, o indivíduo que dorme durante o dia, dificilmete chegará ao sono profundo, ficando apenas no sono superficial’’, esclarece a médica.
De acordo com a neurologista, os distúrbios do sono diminuem consideravelmente a qualidade de vida e de saúde. ‘‘Esses distúrbios, muitas vezes, começam na infância, interferindo na concentração, na capacidade de aprendizagem e na estabilidade emocional. Mas, felizmente, essas patologias podem ser diagnosticadas e tratadas por especialistas com grande percentual de resultados positivos’’, afirma a professora Mônica Marcos.
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