Celso Mattos
É possível amar alguém sem sentir ciúmes? Não, mil vezes não. ‘‘Quando a gente gosta, é claro que a gente cuida’’, diz a música ‘‘Sozinho’’, composta por Peninha, e que agora está sendo cantada por Caetano Veloso. Sempre presente em canções românticas como ‘‘Ciúme de Voc꒒, de Roberto Carlos. Já no estilo mais escrachado da banda ‘‘Ultraje a Rigor’’, esse sentimento é retratado através de atitudes desesperadas, a ponto de o roqueiro Roger Moreira afirmar: ‘‘Eu me mordo de ciúme’’. Segundo os especialistas, o mais difícil é saber dosá-lo num relacionamento amoroso.
‘‘Como a alegria, a tristeza e a angústia, o ciúme também é inerente ao ser humano. É um sentimento natural em qualquer pessoa que gosta muito de alguém ou de alguma coisa’’, afirma o psicólogo Pedro Carlos Dakkache. O problema é quando ele começa a se tornar excessivo e doentio. ‘‘Quem é exageradamente ciumento tem baixa auto-estima, é inseguro e tem uma imagem desavalorizada de si próprio. Tem medo de ser trocado por outro a qualquer momento e para evitar isso, restringe a liberdade do parceiro e tenta controlar suas atitudes. É quando o ciúme se torna tirano e limitador’’, explica.
Para o psicólogo é muito difícil manter um relacionamento quando um dos parceiros não consegue controlar esse sentimento. ‘‘Além de ser sufocante, ele cria uma relação de dependência muito grande. Quem convive com uma pessoa excessivamente ciumenta precisa carregar nas costas a responsabilidade da felicidade e bem-estar do outro o tempo todo. É uma sobrecarga que ninguém suporta’’. Pedro Carlos Dakkache ressalta que a origem do ciúme doentio pode estar na história familiar. ‘‘Uma criança que cresceu em um lar no qual houve casos de traição, pode vir a se tornar um adulto bastante ciumento’’.
Egoísmo Em compensação a ausência total de ciúme também reflete um distúrbio a ser analisado. Como diz a música ‘‘Sozinho’’, ‘‘...por que você me deixa tão solto? Por que você não cola em mim?’’, todo mundo gosta de sentir que é importante para alguém e que esse alguém não quer perdê-lo. ‘‘Se por um lado o excesso de ciúme não é uma expressão de amor, mas de egoísmo, a ausência desse sentimento demonstra um individualismo exacerbado’’, argumenta o psicólogo.
Em seu livro ‘‘Na Cabeceira da Cama’’, a psicanalista carioca Regina Navarro Lins crítica o ciúme em todos os níveis. ‘‘Independentemente da forma como se apresenta, o ciúme é sempre sufocante. Não só para quem ele é dirigido, mas também para quem o sente. Só quem acredita ser uma pessoa importante não sente ciúme. Sabe que ninguém vai dispensá-la com tanta facilidade. E se tiver desenvolvido a capacidade de ficar bem sozinho, sem depender de uma relação amorosa, melhor ainda. Pode até sofrer em caso de separação, mas tem certeza de que vai continuar vivendo sem desmoronar’’, afirma a psicanalista.
Na opinião do psicólogo Pedro Carlos Dakkache, é difícil estabelecer uma linha divisória entre o ciúme normal e o doentio. ‘‘Mas quando ele começa a incomodar e a interferir no relacionamento, a melhor saída é buscar a ajuda de um profissional. Atitudes como seguir a pessoa amada, cheirar ou examinar roupas para descobrir possíveis indícios de traição e fazer escândalos em público não são normais’’, garante. Ele observa também que o ciúme não é um sentimento característico apenas nos relacionamentos afetivos-sexuais. ‘‘É comum entre irmãos, amigos e no campo profissional’’, acrescenta.



‘‘É uma expressão de amor, mas não uma prova’’


Fotos: Paulo Wolfgang

Karla Tass, 23 anos - ‘‘Sou bastante ciumenta. Tenho consciência de que isso é uma bobeira, mas não consigo evitar. E depois que eu bebo um pouquinho, fico ainda mais ciumenta. Se alguém mexer com meu namorado sou capaz de armar o maior barraco. Não tenho dúvidas de que quem ama sente ciúmes. Já tive outros namorados dos quais não gostava tanto e não era tão ciumenta como sou como meu atual namorado. Sei que isso prejudica o relacionamento, mas eu sou assim, tenho o sangue um pouco quente demais’’.


Caio Rangel, 20 anos - ‘‘Pra mim o ciúme é uma expressão de amor, mas não uma prova. Eu me considero um cara mais ou menos ciumento. Nunca fiz cenas de ciúmes em público, mas sou do tipo que fico com a cara emburrada. Porém, tento me controlar porque sei isso pode acabar com um relacionamento. Ninguém suporta o ciúme em excesso. Eu, por exemplo, gosto quando percebo que sou motivo de ciúme porque queira ou não, isso é uma demonstração de afeto, de que você é importante para alguém’’....ciúmes da pessoa amada, mas este sentimento precisa ser dosado para não se tornar tirano e limitador
Arquivo Folha‘‘Em excesso, o ciúme é uma demonstração de insegurança e baixa auto-estima’’, diz o psicólogo Pedro Carlos Dakkache

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