Que luxo, um mercado sem crise!
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quinta-feira, 21 de agosto de 2003
Carlos Franco 
A Tiffany & Co. está duplicando sua presença na América do Sul. Ou melhor, no Brasil e, em particular, na cidade de São Paulo. A rede que vende os mais reluzentes diamantes do mundo há 166 anos, daqueles que encantaram Audrey Hepburn no filme Bonequinha de Luxo, inaugura em setembro, na Rua Haddock Lobo, a sua segunda loja no continente sul-americano para espanto de quem sequer acreditava no sucesso do empreendimento quando aqui chegou em maio de 2001. E, desde então, enfrentou a alta do dólar, mantendo a imponência de sua fachada e os preços de seus produtos, mas sem perder a clientela.
''O Brasil é um grande mercado para produtos de luxo e a Tiffany tem hoje uma carteira de jóias que permite que muitos as levem para casa por causa dos preços diferenciados, como, por exemplo, alianças de noivados e pingentes de bebês'', diz Laura Pedroso, gerente-geral da Tiffany & Co. no País. Pura modéstia. A própria Laura reconhece que os preços de um produto Tiffany estão à altura da grife, sinônimo de bom gosto e poder financeiro. Aquilo que a personagem de Audrey buscava alucinadamente no filme que, nos Estados Unidos, foi batizado de Breakfast at Tiffany's.
Na verdade, o que acontece no mercado brasileiro de luxo, diz um respeitado consultor de empresas que atua no segmento, é a existência de um brasileiro ávido pelo status que as marcas oferecem os chamados novos ricos ou emergentes e outros, que compravam esses produtos no exterior, e se valem, agora, da facilidade em adquiri-los no próprio País e a preços menores ou em condições facilitadas.
''Como há mobilidade nas empresas, com contratações de altos executivos e constantes mudanças de postos existe, para muitos, especialmente as mulheres, a necessidade de ostentar uma grife como a Tiffany. Afinal, não há como não notar essas jóias, sejam pelo seu design clássico ou pelas ousadas linhas da coleção Paloma Picasso.''
Discrição No ano passado, a americana Tiffany & Co. registrou um faturamento tão reluzente quanto os diamantes que Charles Lewis Tiffany fez brilhar numa então emergente Nova York da virada do século 19 para 20. Fechou o balanço de 2002 com faturamento de US$ 1,7 bilhão frente a US$ 1,6 bilhão em 2001, e embolsou um lucro líquido de US$ 189,9 milhões.
''O importante é que estamos acreditando no Brasil e investindo aqui'', diz Laura, de certa forma retribuindo o gesto generoso da sua seleta carteira de clientes em presentear ou se presentear com Tiffany. ''É tudo o que se pode desejar'', como diria Audrey. Em troca, o cliente tem a discrição da rede, que nunca revela os nomes de quem compra suas preciosidades. Nem tão pouco os preços dos produtos, que são fornecidos mediante consulta, a exemplo de colares de pérolas de R$ 1 milhão, em exposição neste momento.
Canetas E se para comprar uma jóia, um relógio, um utensílio doméstico, ou uma simples carteira da marca Tiffany é preciso ter uma conta corrente em banco ou um cartão de crédito vistoso como os diamantes, o diretor-geral da Montblanc no Brasil, Freddy Rabbat, aconselha o uso de canetas que traduzem esse poder. Uma Montblanc Czar Nicolai I, por exemplo, chega a custar R$ 3,2 mil. Mas Rabbat diz que há modelos mais simples e outros artigos masculinos e femininos que levam a grife, como relógios e carteiras. Com uma única loja própria no País, em São Paulo, na esquina das Ruas Oscar Freire e Haddock Lobo, nos Jardins, a Montblanc é a mais tradicional e sofisticada grife de canetas do mundo.
Também são as mais caras, mesmo os modelos esferográficos com o design original que, desde 1924, nunca mais saiu de cartaz. Talvez, por isso, são as preferidas do mercado financeiro e de quem quer status na hora de assinar contratos, de compra até casamento.
Os ex-ministros da Fazenda Pedro Malan e Marcílio Marques Moreira, por exemplo, não as dispensam. Por isso, um dos motores das vendas no País são os jovens que ingressam no mercado financeiro e os que se formam, principalmente em categorias que têm a caneta como aliada. Só que, sincero, Rabbat diz que não espera muito, em vendas, este ano. ''Se vender o mesmo do ano passado, podemos comemorar.''
O mercado de produtos de luxo, ensina Rabbat, está intimamente ligado ao dólar e ao comportamento do setor financeiro. ''Se há retração nos mercados, haverá retração nas vendas. Nesses períodos, o que se vende são os artigos de manutenção. As cargas e as tintas, ou os acessórios'', diz. Por sinal, quem compra uma caneta Montblanc não terá como usar outra carga senão a fabricada pela empresa. Nenhuma outra, diz Rabbat, se adapta e se o consumidor a usar estará jogando fora a garantia do produto. Ou seja, terá uma jóia no arquivo morto, sem utilidade. Como Rabbat estima que existam 250 mil canetas Montblanc em uso no País, a venda de cargas não pára nunca. A fábrica dessas canetas que começou em Hamburgo, na Alemanha, em 1908, hoje fatura por ano cerca de US$ 2 bilhões.
Prataria imperial Outra grife de luxo e de peso, com loja próxima à da Montblanc, na Haddock Lobo e vizinha do Fasano, templo da gastronomia, é a Christofle. Também, neste caso, é a única loja própria da grife, que, no Rio de Janeiro e em Brasília, é representada pela H.Stern. O diretor-geral da empresa no Brasil, o francês Patrick de Gouttes, conta que a grife, criada na França em 1830 pelo joalheiro Charles Christofle, chegou ao País para atender Dom Pedro II. ''Todo o serviço de prataria dos palácios brasileiros era da Christofle e, desde então, as vendas para o Brasil nunca mais pararam.''
E se diretores e gerentes-gerais de outras grifes no Brasil ficam de olho na variação do dólar, isso não chega a preocupar De Gouttes a Christofle tem ateliê no País para produzir aqui parte da prataria que vende. ''O Brasil é um excelente mercado, especialmente por causa das listas de casamento, bem maiores do que as da Europa. Aqui, uma noiva pede uma baixela e o faqueiro completo. Na Europa, é comum vender apenas uma travessa de uma baixela.''


