Que barulho é esse?
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de julho de 2002
Érika Pelegrino <BR>Reportagem Local 
Crianças com notas baixas na escola, desatentas, com dificuldades no processo de alfabetização, não são crianças com capacidade intelectual comprometida. Em outras palavras, baixo rendimento escolar não é sinônimo de falta de inteligência, muitas vezes pode ser consequência da Desordem do Processamento Auditivo Central (DPAC). O alerta é da fonoaudióloga Márcia Bongiovani
A cena é muito mais comum do que parece. A criança na escola distrai-se facilmente, tem dificuldades em entender o que a professora está explicando e, consequentemente, apresenta baixo rendimento. Ao ler uma história atrapalha-se na interpretação. É um aluno agitado demais ou muito passivo.
Esses casos em sua maioria são tratados como problemas de ordem mental, hiperatividade ou ain6da, simplesmente, como um traço da personalidade do indivíduo. Márcia Bongiovani afirma que o problema, muitas vezes, está na incapacidade de lidar com barulho, mas poucos profissionais sabem disto.
''Por ser pouco conhecida, a Desordem do Processamento Auditivo Central (DPAC), costuma ser confundida com falta de inteligência ou com alguma deficiência mental'', alerta a fonoaudióloga. Em Londrina não há índices oficiais sobre a quantidade de pessoas que sofrem do problema. O único dado quantitativo do qual Márcia Bongiovani dispõe é dos pacientes que atendeu nos últimos 10 meses, quando começou a fazer o exame de Processamento Auditivo Central (PAC). Neste período foram diagnosticados 120 casos.
Desnutrição Uma pesquisa realizada em São Paulo, porém, pela fonoaudióloga Liliane Desgualdo Pereira, da Escola Paulista de Medicina (EPM) pesquisa publicada pela revista Superinteressante em 2000 , segundo Márcia Bongiovani, revelou que de 10% a 15% dos alunos de escolas particulares sofrem de DPAC.
Nas escolas públicas o resultado foi alarmante: 70% dos alunos apresentam o problema. Segundo Márcia Bongiovani, a desnutrição é uma das causas da DPAC, por isso sua incidência maior em crianças de classes economicamente mais desfavorecidas.
A desordem pode ser descrita como dificuldade em processar a informação auditiva. A criança tem a audição e a habilidade intelectual normais, mas tem dificuldade de entender bem o que é falado. Para essa criança o mundo se transforma numa interminável confusão de barulhos.
'' O indivíduo não consegue decodificar a fala do interlocutor. Até a entonação das frases torna-se difícil e uma pergunta pode soar como uma afirmação e uma ironia acaba parecendo a frase mais séria do mundo'', explica Márcia Bongiovani. ''Os amigos acabam se afastando, a dificuldade de aprendizagem afeta a auto-estima'', complementa.
Diagnóstico A detecção do problema só é feita por fonoaudiólogos através de um exame chamado Processamento Auditivo Central (PAC). O exame dura uma hora e meia e é feito em uma cabine acústica onde são aplicados diversos testes. A DPAC pode apresentar três graus leve, moderado, severo e três tipos codificação, organização e decodificação.
Confirmada a desordem do processamento auditivo, é traçado um plano de fonoterapia. Márcia Bongiovani afirma que o tratamento dura em média de seis meses a um ano. Período em que o cérebro é treinado para desenvolver a habilidade de processar corretamente a mensagem recebida. Independentemente do tipo e do grau, há cura.
Além da fonoterapia, Márcia Bongiovani orienta para que a criança seja acompanhada por um tratamento psicopedagógico. ''Um dos maiores danos da DPAC é na auto-estima'', afirma. Há uma grande dificuldade para atender a maioria da população com o problema, já que o exame e a fonoterapia não são feitos pela saúde pública e nem através de planos de sa© úde, de acordo com a fonoaudióloga. O exame custa R$ 120,00 e é feito em Londrina apenas por Márcia Bongiovani. A fonoterapia é feita apenas por quatro especialistas. n


