Quando o suor vira doença
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 22 de maio de 2003
Rosângela ValeReportagem Local 
Além dos batimentos cardíacos acelerados, da apreensão e do medo característicos das situações tensas, os momentos de nervosismo trazem outro sintoma recorrente para a secretária Joyce Macedo de Oliveira, 19 anos. O suor começa a lhe escorrer pelas mãos e pelos pés. ''Às vezes, escorrego do chinelo'', conta. É assim desde que era criança. ''Na escola, as provas chegavam a rasgar. Teve uma época em que eu carregava uma toalhinha, mas era constrangedor, todo mundo ficava fazendo perguntas'', lembra.
No dia-a-dia, o desconforto se manifesta em todas as situações. ''No ônibus, chega a pingar. Tenho vergonha de cumprimentar as pessoas. Mexe muito com o emocional da gente; já chorei muito por causa disso'', revela Joyce, que tentou alguns tratamentos com medicação via oral, sem nenhum sucesso. O estudante Ricardo (nome fictício), 19 anos, começou a perceber aos 15 que transpirava mais dos que os colegas. Incomodado, evitava sair de casa com vergonha das camisas molhadas. ''Fiz terapia, tive uma melhora no começo, mas não foi suficiente'', relata.
O constrangimento e as dificuldades de convívio social são os maiores problemas enfrentados pelos portadores de Hiperhidrose sudorese excessiva, que ultrapassa a necessidade de termoregulação. Trata-se de uma doença benigna, que atinge cerca de 1% da população e surge sobretudo no período da adolescência. ''A genética é um fator importante, mas há um componente emocional muito grande, tanto que um dos tratamentos é a psicoterapia'', explica o angiologista, cirurgião vascular e especialista em medicina estética João Augusto Bille.
De acordo com ele, a hiperhidrose se manifesta com mais frequência nas mãos e nas axilas, pois está relacionada à hipersecreção das glândulas écrinas, que têm importante papel na termoregulação e estão mais concentradas em tais regiões. Mas o problema aparece também em outras partes do corpo, como costas, pés e testa. A causa pode ser desconhecida (hiperhidrose primária) ou estar associada a outras doenças (hiperhidrose secundária), como obesidade, uso de drogas antidepressivas e alterações endócrinas e neurológicas. Neste último caso, o tratamento deve ser clínico.
Botox Por se tratar de uma afecção benigna, qualquer procedimento que envolva riscos desproporcionais têm sido evitados pelos médicos como forma de tratamento da hiperhidrose primária. É o caso da simpatectomia (cirurgia a céu aberto ou por vídeo) que elimina ou cauteriza o nervo desencadeante da sudorese. Os procedimentos exigem anestesia geral e podem trazer complicações como a Síndrome de Horner lesão no nervo, fazendo a pálpebra superior ''cair''. A remoção da glândula por lipoaspiração também é contra-indicada, já que pode provocar sangramento, infecções, dor e retrações de tecido.
Nos últimos anos, um dos medicamentos que vêm sendo indicado para controlar o problema é a toxina botulínica que, segundo Bille, faz a simpatectomia química, inibindo a função do nervo sem a necessidade de cirurgia. Amplamente utilizada pela medicina estética para eliminar, temporariamente, rugas de expressão, o botox tem apresentado resultados animadores no controle da sudorese excessiva. ''É mágico, no dia seguinte já parei de suar'', conta Ricardo, que se prepara para a segunda aplicação depois de 14 meses livre do problema. ''Começou a voltar agora, aos poucos'', diz.
O médico explica que o procedimento é bastante simples, pois a aplicação é feita no próprio consultório, com pouquíssimos riscos. Basta apenas uma sessão para eliminar ou reduzir consideravelmente o problema. ''O efeito dura, em média, de oito meses a um ano'', informa Bille. Cada aplicação custa de R$ de 1.500 a R$ 1.800. n


