Quando o cinema vai à escola
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de outubro de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha da 6ª 
Era uma vez uma época em que se acreditava cegamente no poder do cinema de agir na sociedade, e mudá-la para melhor e o vento levou para o limbo estas melhores intenções. Agora quer dizer já, imediatamente quando alguém fala em influência do cinema está sempre se referindo quase que tão somente à sua (dele, cinema) possibilidade nefasta de causar insensibilidade, violência, distanciamento. No entanto, há os teimosos que ainda acreditam na hipótese-quase-utopia de transformação pelo poder da imagem, e trabalham para que isto de fato ocorra um dia não muito distante.
O resultado desta persistência são os chamados filmes que convidam à reflexão diante de questões graves que, de alguma forma, comprometem o bem estar do homem nesta irrisório canto do universo. Eles existiam lá atrás, no século passado, e eram feitos de um jeito que se adequava às variantes do momento. Eles continuam existindo agora, neste século, só que assombrados por uma muito mais veloz e voraz contextualização entre causas e efeitos.
Cinema e professores, cinema e alunos, cinema e sala de aula, cinema e aprendizado. Muitos os títulos, muitos os enfoques, conseqüentemente um caleidoscópio de resultados. Tomando por base os filmes como fonte de conhecimento da realidade porque de alguma forma e sempre eles se propõem à reconstrução, à reconstituição desta realidade (transformação já é outra história) seja de que modo for, realista, engajado, alienante, naturalista, ficcional ou documental , o tema cinema & escola abre um amplo leque de pontos de vistas.
O que se coloca a seguir, para cinéfilos e não cinéfilos, são títulos de certa faixa etária que já fazem parte da história do cinema, e outros mais jovens, de safras recentes, que trazem embutidas visões já amoldadas pela diversidade globalizada. Estes pertencem a uma categoria paradoxalmente mais indisciplinada, tratando-se do tema do aprendizado e coroando a tese entusiasticamente aceita de que nem toda disciplina significa qualidade de ensino ou preparação correta para exercitar a cidadania e agir com ética em qualquer circunstância. Quanto à disponibilidade, nem todos os focalizados aqui freqüentam locadoras, embora certa preocupação mais recente das distribuidoras em repor os clássicos. Os mais recentes, claro, estão mais visíveis. De resto, memórias mais afiadas e formações culturais de origens diversas devem fazer a diferença em relação ao tema.
Há os bem comportados e sempre citados quando se providencia lista de títulos alusivos ao Dia do Professor. Isto é, aqueles que adotam às vezes posições progressistas, mas dentro de parâmetros condicionados, assimiláveis por platéias que somente aceitam a transgressão se embalada por Hollywood, como o clássico Sementes da Violência, de 1955, e o tradicional (alguns preferem chamar de clássico, o que é discutível) Ao Mestre com Carinho nos anos 1960, ou os mais próximos Sociedade dos Poetas Mortos (1989), Mentes Perigosas (1994) e O Sorriso de Mona Lisa (2003), menções sempre na ponta da língua mas não necessariamente indispensáveis.
No rol de metamorfoses à imagem e semelhança dos mestres, e afastadas preocupações sociológicas ou políticas, estão exemplares edulcorados como as versões de Adeus, Mr Chips (a melhor é a de 1939), as adaptações de Pigmalião de Bernard Shaw (a de 1938 muito superior ao musical de 1964). Já Primavera de Uma Solteirona (1969), tendo como base o faça o que eu faço, mas não faça o que eu digo, é ainda hoje um curioso mix de reacionarismo e progresso convivendo na figura meio amalucada da professora interpretada com grande talento por Maggie Smith. E de maneira muito peculiar a atriz, trinta anos depois, retomou contemporaneamente o magistério como a professora-bruxa Minerva, no universo de magias da escola especializada de Hogwarts, aquela do currículo de feitiços onde o herói é Harry Potter os filmes da série, embora acríticos em relação ao sistema de ensino inglês para superdotados, abordam com razoável sensibilidade o território da fantasia que acompanham o crescimento e relacionamento entre alunos especiais.
Fora dos padrões e das convenções do politicamente correto, aliando argúcia na virulência das críticas ao sistema e sensibilidade na observação do dia-a-dia de crianças no entorno escolar, o diretor francês François Truffaut é literalmente um mestre a visitar com certeza. São três obras-primas de citação e consumo obrigatórios, todos relacionados ao tema da educação: Os Incompreendidos, A Idade da Inocência e O Garoto Selvagem. Aliás, é da França que aportam títulos sempre interessantes, como o rigoroso clássico de Jean Vigo, Zero de Comportamento (1932), visão autobiográfica e ácida sobre a vida escolar.
Da mesma maneira imperdível para quem acredita que um filme pode ser eficaz, vital, importante, urgente, enfim, instrumento político de transformação, é o também francês Quanto Tudo Começa (1999). Nele, o consciente Bertrand Tavernier, fortemente armado com uma câmera e uma montagem inteligentíssimas, em formato quase documental, conta a história de um diretor de escola que enfrenta em várias frentes a burocracia do Estado, ao dar um tratamento humano e pessoal aos seus alunos que habitam as áreas mais pobres, menos assistidas. Uma obra de arte funcional que rejeita por completo a passividade do espectador.
Para quem aposta na capacidade redentora da educação, mesmo longe das salas de aula, mas principalmente em situações perigosamente adversas, o rude, cru, e muito engajado semidocumentário Pai Patrão (1977), de Paolo e Vittorio Taviani, é exemplar impecável. Na mesma direção, embora sem o rigoroso enfoque ideológico dos irmãos italianos, um surpreendente Steven Spielberg fez de A Cor Purpura uma espécie de hino não apenas à dignidade da mulher, mas também ao poder da alfabetização como elemento libertador.
O inglês Kes (1969), de Kenneth Loach, um filme na aparência simples, é um retrato realista da marginalidade adolescente em boa parte captado na escola, lugar onde o personagem Billy deveria ter sua formação para a vida. O ótimo Oleanna (1994) utiliza a relação aluno-professor para tratar, com o enfoque extremamente pessoal do dramaturgo e cineasta americano David Mamet, de um assunto que não está obrigatoriamente afastado dos corredores das escolhas: o assédio sexual.
Já O Despertar de Rita (1983), de Lewis Gilbert, faz parte daquele filão de trocas: o sofisticado mas devastado professor Michael Caine e a ignorante e simplória manicure Julie Walters trocam experiências. Aluna e mestre aprendem mutuamente, em especial lições de vida. No recentíssimo A Escola do Rock (2004), de Richard Linklater, o roqueiro pilantra e irresponsável prepara turma de garotos problemáticos e recebe como prêmio noções de companheirismo e diploma de responsabilidade. E o muito competente e simpático A Língua das Mariposas (1999), do espanhol José Luis Cuerda, mostra como uma relação entre aluno e professor bem como um tempo que seria de descobertas e alegrias pode ser profundamente alterada por um fator violento, no caso a guerra civil espanhola.


