Paulo Wolfgang‘‘O conhecimento traz uma certa tranquilidade’’, afirma a pediatra Andréia Janot Martins, mãe de Daniel e FernandoNão é díficil saber o que mais preocupa as mães. Sejam elas de primeira viagem ou mais experientes, não conseguem controlar a ansiedade quando percebem que o filho está doente. Não importa a gravidade do problema: uma crise de tosse ou uma cólica são suficientes para elas acordarem o pediatra de madrugada em busca de um diagnóstico tranquilizador. Mas, e quando a mãe é a própria pediatra? Bem, neste caso, a situação é um pouco diferente. Um pouco, mas não totalmente. Afinal, mãe é mãe, não importando a profissão que ela exerça.
A pediatra Rosana Mara Ceribelli Nechar tem experiência no assunto. Ela é mãe de quatro filhos em idades bem diferentes: Alexandre, 19 anos; Carlinhos, 16; Rafael, 11 e Fabiana, 6 anos. ‘‘Eu também fico preocupada quando um deles fica doente, mas minha ansiedade é menor. A profissão me dá mais segurança porque sei diagnosticar se uma febre pode ou não virar uma pneumonia’’, afirma a médica. Segundo Rosana Ceribelli, o fato de ser mãe foi fundamental para ela compreender melhor a aflição das mães em geral. ‘‘Tenho certeza que se eu não fosse pediatra seria igualzinha a elas’’, garante.
Como os filhos nunca tiveram problemas graves de saúde, Rosana Ceribelli não tem um pediatra específico para eles. ‘‘Eu sou a médica deles, mas diante de um quadro mais complicado, acredito que não teria condições emocionais. Quando se trata de próprio filho, é difícil manter-se apenas como profissional’’, assegura a pediatra, ressaltando que ter filhos de várias idades é bastante enriquecedor para a profissão. ‘‘Consigo entender melhor não só a mãe, mas também a criança e o adolescente que são meus pacientes’’, acrescenta.
Mário CesarRosana Ceribelli Nechar com os filhos Alexandre, Carlinhos, Rafael e Fabiana: ‘‘É difícil separar o lado emocional do profissional’’
Tranquilidade Andréia Janot Martins é pediatra, especialista em neonatologia e mãe de Daniel, 4 anos, e Fernando, 1 ano e 3 meses, diz que o conhecimento traz a tranquilidade apenas nas coisas mais simples. ‘‘Diante de algo mais grave, a mãe pediatra acaba sofrendo mais porque ela sabe tudo o que a criança vai passar. Eu faço plantão em UTI infantil e depois que tive o meu primeiro filho foi muito duro voltar ao trabalho’’, confessa Andréia Janot.
A médica diz que o emocional de mãe é tão grande que para ela é complicado até auscultar o pulmão do filho. ‘‘Se ouço alguma coisa estranha acho que é porque é meu filho, se não ouço acho que é porque sou pediatra. Por isso, prefiro levá-los a outro profissional. Assim posso tirar dúvidas e dividir responsabilidades. Eu, por exemplo, não teria coragem de pegar a veia de meu filho ou tomar outros procedimentos em situações mais graves’’, afirma ela.
A pediatra e especialista em reumatologia Margarida Fernandes Carvalho concorda com suas colegas de profissão. Mãe de duas meninas - Lígia, 11 anos e Paula, 9 anos -, Margarida conta que quando a mais velha nasceu, ela ficou quase um mês sem dormir. ‘‘Eu tinha medo que minha filha morresse da Síndrome da Morte Súbita. Se a Lígia demorava para acordar, eu ia ver se ela estava respirando. Era uma loucura. Fiquei muito tempo sem sair de casa para não deixá-la sozinha. Por isso, eu entendo quando uma mãe me telefona de madrugada porque o filho está com uma cólica ou uma crise de tosse’’.
A pediatra Margarida Fernandes com as filhas Lígia e Paula: ‘‘Fica mais fácil entender a preocupação das mães’’
Emergência Margarida Fernandes conta que já passou por maus bocados. A família estava em viagem quando a filha mais nova apresentou sinais de meningite. ‘‘Eu não fiquei tão preocupada porque percebi que era meningite viral, mas voltamos imediatamente para Londrina para interná-la. Outra vez, a Lígia quebrou o braço e eu estava sozinha em casa, comecei a tremer e não sabia o que fazer. Isso demonstra que ser pediatra tem suas vantagens, mas não isenta a mãe de preocupações e nem das tensões diante de situações de risco’’, avalia a médica.
No entanto, Margarida Fernandes afirma que, se precisasse, no caso de uma emergência, teria coragem de pegar a veia das filhas e até mesmo de entubá-las. ‘‘Se no momento não tivesse outro profissional treinado para isso, com certeza eu faria. Na hora do perigo, a gente encontra forças, principalmente em se tratando de um filho’’, garante a pediatra.

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