Quando a dor é demais
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quinta-feira, 13 de junho de 2002
Rosângela Vale<br>Reportagem Local 
Dores musculares difusas pelo corpo e uma sensação de cansaço que parece não ter fim. Depois de exames e mais exames, nenhum diagnótisco. O temor de que seja uma doença grave começa a tomar conta do paciente. E os sintomas só pioram. Esse é o retrato da fibromialgia, uma síndrome dolorosa geralmente associada a distúrbios do sono principalmente o não repousante cujas causas mais comuns são stress e ansiedade.
De acordo com a médica reumatologista Cacilda Nakamura, o principal problema da fibromialgia é a falta de informação. Como a pessoa sente muita dor e não dorme direito, sempre está muito cansada. Acaba sendo mal interpretada, já que todos os exames não indicam nada. Chega no consultório achando que têm uma doença extremamente grave, pois a dor chega a ser incapacitante de tão intensa, descreve.
Apesar de pouco conhecida no Brasil, e da inexistência de um levantamento oficial, estima-se que cerca de 5% da população possa desenvolver a síndrome. Nos Estados Unidos, estatísticas mostram que 3,7 milhões de pessoas sofrem com o problema, principalmente mulheres, devido à sobrecarga física, emocional e mental da dupla jornada de trabalho. Toda doença que tem relação com a psiquê é diagnosticada como síndrome conversiva, ou seja, frescura. Esse é um dos motivos que fazem com que a fibromialgia seja difícil de diagnosticar, observa a médica.
Outra particularidade que dificulta o diagnóstico, é que vários dos sintomas da doença podem ser encontrados em outras patologias. Além disso, a fibromialgia pode vir associada a quadros de ansiedade, angústia, depressão, cefaléia, sensação de inchaço nas mãos e nos pés, formigamentos pelo corpo e distúrbios do aparelho digestivo. Segundo a reumatologista, o problema pode ainda estar ligado a tiropatias, síndrome do cólon irritável e artrite reumatóide.
Ela informa que o diagnóstico é feito sobretudo por critérios clínicos, quando há um quadro de dor difusa que dura mais de três meses e ocorre nas partes de cima e de baixo e nos dois lados do corpo. Nesses locais de dor, temos o que se chama de tender points, pontos de compressão extremamente dolorosos. No total, são 18 pontos atingidos, mas a fibromialgia já é diagnosticada quando são citados 11. E também quando há queixa de cansaço, enumera Cacilda, definindo a doença como um pedido de socorro do organismo que não tem o repouso adequado.
O tratamento é feito com analgésicos, milrelaxantes e antidepressivos, para diminuir a dor e melhorar o sono. Cacilda ressalta que, assim como a psicoterapia, a atividade física é fundamental, mesmo que o paciente esteja sentindo dores. Os exercícios fortalecem a musculatura, melhoram a aptidão cardiovascular e, consequentemente, ajudam a promover o bem-estar. É preciso quebrar o círculo vicioso da dor, diz. De acordo com a médica, só a informação de que não se trata de uma doença deformante (e que há tratamento) já ajuda bastante o paciente, pois diminui a ansiedade.
Aprendizado da felicidade Até o ano passado, a psicóloga Maria Aparecida Ribeiro nunca havia atendido um caso de fibromialgia. Este ano, já foram seis. Para ela, trata-se de uma forma de manifestação da depressão. É uma punição inconsciente por não se estar dando conta da vida, afirma.
Segundo a psicóloga, toda doença é uma defesa do organismo. A pessoa não percebe o quão insatisfeita está com a vida, mas continua tocando, até que a luz do painel se acende. Aí, tem que parar tudo para cuidar da dor. Na verdade, ela poderia ter resolvido os problemas antes que as coisas chegassem a esse ponto, adverte.
Durante a terapia, procura-se descobrir a causa da insatisfação. A cura vai depender da pessoa mudar os hábitos. À medida em que ela descobre uma forma mais saudável de lidar com a vida, não vai mais precisar dessa defesa, pois a doença é isso: uma forma de defesa do organismo contra as agressões, diz.
O problema é que nem todo mundo quer se curar. Há pessoas que precisam da doença para viver, pois é uma forma de justificar, para si mesmas, os próprios fracassos, argumenta. Para a psicóloga, o contrário de qualquer doença é a alegria. A terapia, portanto, é um aprendizado da felicidade.


