Qual é o seu ZAHIR?
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quinta-feira, 21 de abril de 2005
Agência O Globo 
Na escolha do tema de seus novo livro, Paulo Coelho se inspirou na obra do escritor argentino Jorge Luis Borges. De acordo com Borges, o conceito do Zahir é de tradição islâmica e apareceu por volta do século XVIII. A palavra, em árabe, quer dizer algo muito presente, que não pode passar desapercebido. ''Algo ou alguém que, uma vez que entramos em contato, termina por ir ocupando pouco a pouco o nosso pensamento até não conseguirmos nos concentrar em nada mais. Isso pode ser considerado santidade ou loucura'', explicou Paulo Coelho na maratona de divulgação de seu novo livro que leva esse nome. O mago disse que também carrega o seu zahir, mas não tem obsessão alguma, a não ser mudar o mundo como escritor, mesmo que seja difícil. ''Não tenho poder como Bush. Se tivesse, já teria acabado com a guerra'', afirmou.
Assim como na arte, na vida real as pessoas normalmente têm uma meta maior a ser conquistada, um sonho pelo qual vale a pena lutar para se sentirem completamente realizadas. Há até quem diga que a verdadeira felicidade é conseguir continuar perseguindo objetivos.
Zahires famososInspirados no tema do livro, atores e músicos contaram quais são as buscas que hoje movem as suas vidas. No caso do ator Marcos Frota, por exemplo, essa idéia fixa está longe de levá-lo à loucura mas pode aproximá-lo mais da santidade. ''Hoje estou com a minha espiritualidade latente e quero passar de três a seis meses em Assis, na Itália, entendendo toda a mensagem que São Francisco transmitiu'', conta ele, que pretende realizar o objetivo tão logo termine de gravar a novela.
Christiane Torloni afirma que seus maiores zahires são profissionais. ''Sou obsessiva no meu trabalho ou por algumas coisas dele, como qualidade e acabamento. Se monto uma peça, enquanto as coisas não estão como devem ser, não descanso'', revela a atriz. No entanto, Christiane adverte que as pessoas precisam ser maleáveis para não se deixarem aprisionar pelos próprios desejos. ''Apesar de ter uma idéia fixa, a gente deve ser flexível para poder chegar até lá. Uma certeza sobre alguma coisa pode fazer inclusive com que você morra dela'', acredita.
A tese da atriz se confirma pelo menos na ficção. Bem antes de Paulo Coelho, Machado de Assis já se dedicou a abordar o tema da idéia fixa no romance ''Memórias Póstumas de Brás Cubas'', em que o narrador-defunto Brás Cubas conta ao leitor que morreu por conta da obsessão de descobrir um remédio que curasse a tristeza humana. Reginaldo Faria, que interpretou o personagem no cinema, conta como aprendeu a dar mais valor à vida depois que passou por problemas de saúde. ''Principalmente agora, depois que estive perto da morte, o fundamental é o respeito pela vida e o abandono do lado mesquinho. Essa é minha idéia fixa'', afirma.
Algumas filosofias orientais usam o conceito de rigor e determinação, rigor e continuidade. Pode parecer uma coisa boba, mas é aquilo que faz as pessoas terminarem o colégio, a faculdade, fazer uma carreira. Mas não é um objetivo alcançado já. ''É uma coisa que todos os dias se conquista, por essa determinação. Às vezes, você tem uma certeza que faz com que você morra dela, inclusive. Se a água descesse subitamente numa cachoeira, levaria tudo. Mas ela contorna as pedras, as dificuldades. Prefiro pensar assim. Apesar de ter uma idéia fixa, a gente deve ser flexível'', acrescenta Christiane Torloni.


