Qual é a sua?
Rosângela Vale
Se você vai dormir pensando em fazer Arquitetura e acorda decidido a estudar Medicina, é melhor passar por uma orientação vocacional antes de preencher a ficha de inscrição para o vestibular
Sabe aquela pergunta manjada que toda criança responde na ponta da língua: o que você vai ser quando crescer? Pois bem, o tempo passou e chegou a hora de decidir para valer. Escolher um curso entre as várias ofertas das universidades é a primeira das muitas responsabilidades que a vida adulta cobrará. Por isso, crises existenciais são comuns. Acrescente-se a isso a onda de desemprego que assola o mundo, as atuais mudanças nas relações de trabalho e o grande leque de opções profissionais que a tecnologia vem abrindo. Está feita a confusão. Na cabeça do futuro vestibulando, dúvidas pipocam.
Há mercado para o que eu quero fazer? Escolhi o que realmente gosto ou foi influência dos meus pais? Será que estou fazendo a escolha certa?. Obrigar um jovem a definir sua vida profissional aos 16, 17 anos, é cruel, mas a tarefa pode ser menos árdua. Quando bem orientados, os adolescentes têm condições de fazer boas escolhas, e o que é mais importante, podem fazê-las com segurança, garante a psicóloga Neide Zucoli de Oliveira, que trabalha com orientação vocacional há cerca de 10 anos.
Ansiedade Fazendo uma análise do perfil do vestibulando no decorrer desse tempo, ela revela que o adolescente de hoje está mais ansioso diante da multiplicidade de ofertas. A concorrência no vestibular também aumentou muito. Atualmente, há mais jovens querendo desistir do curso que escolheram para optar por um menos concorrido. Há outros que chegam com muitas dúvidas, não têm a mínima idéia do que querem fazer. E alguns encontram dificuldades na escolha porque têm interesses por áreas muito diversificadas, relata Neide. Nesse caso, a orientação vocacional deve mostrar onde é possível usar esse talento polivalente.
Quem disse que é preciso excluir? Hoje, existem muitas profissões
interrelacionadas. Deve-se traçar uma meta para juntar esses interesses de forma satisfatória para a pessoa, explica a psicóloga, salientando que a profissão não deve ser encarada como um fim em si, mas como um meio de realização pessoal. Assim, a escolha profissional passa necessariamente pelo crivo do autoconhecimento.
É o que deve propor todo trabalho de orientação vocacional que, ao contrário do que muita gente pensa, não se limita a testes. O teste é apenas um instrumento; revela os interesses e aptidões da pessoa, mas não dá uma resposta, esclarece Neide, que em parceria com a psicóloga e pedagoga Norma Camargo Maia Mignone criou, há dois anos, o SOS Vestibulando, uma espécie de curso psicológico de preparação para enfrentar o estresse do vestibular e dar informações suficientes para que o jovem possa escolher a profissão de forma consciente.
Confirmação Além dos testes, o SOS inclui técnicas de relaxamento, exercícios de concentração, técnicas de estudo, controle da ansiedade, trabalhos corporais e de criatividade, e é feito em grupo, o que garante um maior aproveitamento. A troca de experiências torna o trabalho mais rico e motivador para os jovens, diz Neide. O trabalho tem duração de dois a três meses. Para quem quer apenas fazer a orientação vocacional, o tempo diminui: 8 sessões. Também é possível optar por sessões individuais. Eu, particularmente, indico o trabalho em grupo, diz Neide.
Quem já passou pela experiência recomenda. Foi a melhor coisa que fiz, dispara Bruna de Almeida Mantovani, 16 anos, que cursa o segundo ano do Colegial, época ideal para fazer a orientação vocacional segundo a psicóloga. O aluno não está tão ansioso quanto aquele que está prestes a fazer o vestibular, justifica Neide. O objetivo de Bruna era confirmar se havia feito a escolha certa. Tinha medo de ter optado por Arquitetura e ter vocação para Biologia. Mas seus receios não se concretizaram. Os testes indicaram a área de Artes. Para ela, o mais interessante foi aprender técnicas de concentração, o que a ajudou nos estudos, além das amizades que conquistou. A turma era muito legal, todo mundo saiu com uma idéia do que faria, lembra.
Felipe Tavares, 15 anos, também aponta os progressos nos estudos como um dos principais benefícios da orientação vocacional. Ele teve ainda a oportunidade de descobrir profissões que nem conhecia. O mais interessante é a forma que eles lidam com o assunto, com jogos e brincadeiras, observa. Motivado pelos pais, ele fez o curso e teve a confirmação que esperava. Agora tenho certeza que minha área é Humanas, acho que Jornalismo, revela.
Reflexão De acordo com a psicóloga Palmira Gomes, apesar de a adolescência ser uma fase de incertezas, todo jovem sabe, internamente, quais são suas habilidades naturais. Quando ele tem muitas dúvidas, nosso papel é descobrir onde ele bloqueou isso, diz, informando que os pais, na ânsia de querer o melhor futuro para seus filhos, podem confundi-los. O objetivo da orientação vocacional é tirar todas essas interferências para que o adolescente enxergue com clareza as suas preferências.
Em parceria com a psicóloga Aurelene Rosa, Palmira iniciou, há um ano, o curso de orientação vocacional em grupos de, no máximo, oito pessoas. O trabalho é feito em 10 dias e inclui testes que medem interesses gerais, personalidade e aptidões, além de entrevistas e visitas a faculdades. Lá, os adolescentes têm a oportunidade de conversar com os universitários e ver que os medos e as dificuldades são os mesmos. Descobrem que não vão ter que crescer da noite para o dia só porque passaram no vestibular, observa Palmira. Os estereótipos que rondam os cursos menos badalados também são discutidos no grupo, desfazendo preconceitos e provocando a reflexão. A orientação vocacional tem muito disso: fazer o adolescente parar para pensar.
Os encontros em grupo duram de 30 a 40 minutos por dia; em seguida são feitos testes e entrevistas. Já a orientação vocacional individual tem duração de cinco dias. Dependendo da pressa e da disposição da pessoa, esse tempo pode encurtar, mas o conteúdo é o mesmo. O resultado, sempre apresentado na presença dos pais, indica as profissões com maior e menor possibilidades de êxito. E se não serve para anular a ansiedade das provas, pelo menos deixa a sensação de que a tortura do vestibular não será em vão.
Serviço:
Neide Zucoli de Oliveira, fone 326-1170
Aurelene Rosa e Palmira Gomes, fone 336-3155





