Que a respiração é fundamental para a vida ninguém discute. O que poucas pessoas sabem é que uma respiração adequada, rica em oxigênio, favorece não só a saúde física como a mental. E respirar de forma inadequada provoca distúrbios variados, que vão desde déficits no crescimento e no peso corporal (no caso de crianças), irritação, má-postura, ronco, apnéia (parada respiratória), dificuldades de fala, alterações da caixa toráxica, da face e arcada dentária, e, a longo prazo, até alterações cardíacas.
A respiração correta deve ser sincronizada, encadeada e simultânea com a fonação (fala) e com a deglutição (ato de engolir). Ela deve ser principalmente nasal, pelo fato de que é através do nariz que acontece a filtragem, o aquecimento e a umidificação do ar recebido. Ao falar, a respiração deve ser buco-nasal; em silêncio, apenas nasal. ‘‘Quando o ar entra pela boca, ele não passa pela filtragem, o que é um malefício para o respirador bucal. No entanto, quando estamos conversando não há como impedir a entrada de ar pela boca’’, diz a fonoaudióloga Sofia Dias Xavier, especialista em voz pelo Centro e Estudos da Voz e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Laringologia e Voz.
O ato completo de respirar pode ser observado no bebê. Ele respira com o corpo todo. ‘‘Se uma criança nasce a termo, todos os órgãos e músculos que compõem o aparelho respiratório funcionam perfeitamente, como numa sinfonia. É ao longo dos anos que os problemas vão aparecendo. As vias aéreas vão ficando obstruídas e a respiração tende a ser cada vez mais curta (se concentra mais no peito)’’, explica Sofia.
Isso acontece por inúmeros fatores. Na verdade, a respiração do indivíduo varia de minuto a minuto, seguindo a trajetória de suas atividades e emoções. ‘‘Existe uma forma de respirar para cada atitude que se assume. A respiração muda conforme os sentimentos. Dependendo da forma como inspiram e expiram, as pessoas controlam ou liberam as emoções. Até para sentir é preciso saber respirar adequadamente. Estudos recentes têm mostrado que a respiração adequada pode levar também a uma ótima ação relaxante e anti-stress. Afinal, respirar não é apenas um mecanismo fisiológico, é o insuflar da vida’’, diz Sofia. Por isso, o stress e a ansiedade também são causas da respiração inadequada.
Forma e função Outra causa comum é quando a mãe não amamenta a criança no peito, introduzindo desde cedo a mamadeira. Processos alérgicos, resfriados repetitivos, obstrução nasal, hipertrofia de adenóides e amígdalas são outras causas comuns, principalmente de respiração bucal. E o maior problema é que elas geram um ciclo vicioso. ‘‘O respirador bucal terá mais tendência a esses processos alérgicos e aos refriados repetitivos. Aqui, mais uma vez, forma e função são um binômio inseparável: a função faz a forma e a forma permite a função’’, afirma a ortodontista Vera Lúcia Fonseca.
A função alterada vai modificar a forma não só do próprio órgão que a efetua como também das estruturas adjacentes. ‘‘A respiração bucal, pelo fato de o ar não penetrar pelas narinas e não passar pelas vias aéreas superiores pode causar atrofia nas narinas, acúmulo de muco na entrada da trompa de Eustáquio (problemas no ouvido-orelha), hipertrofia (aumento do volume) das adenóides, entre outras alterações’’, diz.
O respirador bucal pode ser reconhecido através de algumas características comuns como boca aberta, olhar vago e distante, olheiras - em geral por noites maldormidas, desatenção, musculatura labial frouxa, musculatura facial estirada, obesidade ou magreza exagerada e alterações de postura. ‘‘O corpo muda a postura com o objetivo de executar a má função adquirida’’, explica Vera.
Apnéia Só para se ter uma idéia da gravidade da respiração bucal, o otorrinolaringologista Flávio Oliveira Filho lembra que ela se torna ainda mais complicada quando se une a outros fatores como sedentarismo, obesidade, hipertensão arterial, entre outros, desencadeando outro problema grave, principalmente em adultos, como a síndrome da apnéia obstrutiva do sono. ‘‘Essa síndrome é uma doença complexa, que representa um risco de substancial morbidade e mortalidade. Ela se caracteriza por episódios recorrentes de obstrução respiratória, durante o sono, causados pelo colapso das vias aéreas superiores’’, explica o médico, citando artigo publicado pela revista brasileira de otorrinolaringologia.
Aqui, vale lembrar que a apnéia manifesta-se em cerca de 50% das pessoas que roncam. E o ronco é uma consequência direta da respiração bucal. Só para se ter uma idéia dos números, segundo pesquisa realizada nos Estados Unidos, o ronco atinge cerca de 40 milhões de norte-americanos, dos quais 20 milhões sofrem apnéia do sono, cuja principal manifestação clínica é a excessiva sonolência diurna.
As consequências da respiração bucal não param aí, elas são inúmeras: erupção dentária alterada, aumento de cáries, projeção lingual, mordida aberta, alteração do osso hióide (considerado ‘‘raiz da língua’’, provocando alteração de fala e deglutição), entre outros.
Tratamento multidisciplinar Para a ortodontista Vera Fonseca, nessa área também é melhor prevenir do que ter que corrigir depois. ‘‘As mães devem ficar atentas desde as primeiras horas de vida de seu bebê. Manter suas narinas sempre desobstruídas e, ao primeiro sinal de boca aberta, levar ao otorrino para uma avaliação’’, diz.
Depois de instalado o problema, os profissionais são unânimes: o tratamento é multidisciplinar, na maioria das vezes exige o trabalho conjunto de otorrino, fonoaudiólogo, fisioterapeuta e ortodontista. ‘‘Nenhum especialista vai conseguir resolver o problema sozinho. Mesmo que o tratamento seja cirúrgico haverá necessidade de outros tratamentos, para que o hábito de respirar pela boca não persista provocando novos problemas’’, alerta Vera.
O diagnóstico do respirador bucal é feito por um otorrino, através de exames físicos e Raios X. Quando necessário, principalmente em pacientes adultos, são realizadas tomografia, videonasolaringoscopia e polisssonografia (monitoragem do sono). O tratamento varia de acordo com o diagnóstico, podendo ser cirúrgico, clínico medicamentoso, fisioterápico, fonoterápico e ortodôntico, entre outros. Sempre levando em conta os aspectos multifatoriais que envolvem o problema e tratando, inclusive, as doenças associadas.

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