Cristina Charão
Agência Estado
Novos filtros solares em forma de loções, géis e sprays tomaram definitivamente o lugar dos cremes pastosos e gordurosos neste verão. Eles ficaram mais fáceis de ser aplicados. De maneira geral, a indústria de produtos farmacêuticos e de cosméticos melhorou a apresentação dos fotoprotetores, embora o princípio ativo dos produtos, normalmente à base de dióxido de titânio, não tenha mudado. Isso também permitirá às pessoas o uso de diferentes produtos para cada parte do corpo, aumentando sua eficácia. Os sprays, por exemplo, são mais indicados para homens, por protegerem melhor regiões do corpo com pêlos.
O uso dos protetores solares difunde-se cada vez mais. De acordo com os dermatologistas devem ser usados frequentemente, em qualquer época, até mesmo quando o tempo estiver nublado – situação comum nessa chuvosa estação de férias. Diante dessas recomendações, a tendência da indústria é incorporá-los cada vez mais à fórmula de outros produtos. Já estão disponíveis no mercado vários tipos de cremes hidratantes, bases e batons com filtro solar. Mas utilizar apenas o protetor não é suficiente. A dermatologista e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Ediléia Bagatin adverte que a aplicação de filtros é apenas um dos vários procedimentos destinados à proteção da pele.
O médico Marcus Maia, da Sociedade Brasileira de Dermatologia, também adverte que a sensação de proteção total que muitas pessoas têm ao usar protetores é falsa. ‘‘Ainda não inventamos o protetor perfeito’’, diz ele. ‘‘O filtro é uma coisa boa, mas ainda é menos importante que as outras recomendações.’’
Sem alerta Na opinião do dermatologista, os protetores solares podem mascarar os efeitos de uma exposição excessiva aos raios solares. ‘‘As pessoas não ficam mais vermelhas, o que sempre funcionou como um sinal de alerta’’.
O que os especialistas recomendam é uma mudança de atitude – o que significa um conjunto de ações destinadas a proteger a pele. ‘‘Trata- se de tomar sol com inteligência’’, diz Ediléia. Sob esse ponto de vista, nem é preciso gastar muito dinheiro com medidas preventivas. Quem usa camiseta e boné, respeita os horários adequados para ficar exposto ao sol, pode se considerar bem protegido em relação a problemas como o fotoenvelhecimento (desgaste da pele causado pela radiação) e o câncer de pele.
Mudar de atitude também pode significar deixar de lado o hábito puramente estético do bronzeamento artificial. Há pouco mais de um mês, a Sociedade Brasileira de Dermatologia incluiu entre as propostas da Campanha Nacional de Prevenção ao Câncer de Pele, que o Ministério da Saúde exigisse que as clínicas advertissem os clientes sobre os perigos da exposição aos raios ultravioleta. Mesmo que use apenas raios do tipo UVA, radiação menos nociva presente na luz solar, o procedimento tem o mesmo efeito futuro da ação dos raios UVB e UVC, que cada vez mais incidem sobre o planeta com a destruição do seu filtro natural, a camada de ozônio.
Os cuidados devem ser redobrados com crianças e adolescentes. Como o efeito dos raios ultravioleta de todos os tipos é cumulativo, é muito importante tentar educar os jovens quanto à prevenção. ‘‘São muitos e muitos verões de exposição e o câncer vai aparecer lá na frente’’, explica o chefe do Departamento de Oncologia Cutânea do Hospital do Câncer A.C. Camargo de São Paulo, Rogério Izar Neves.
Mas nem tão ‘‘lá na frente’’. De acordo com informações do professor Neves, o número de diagnósticos de câncer de pele em pessoas com idade entre 25 e 30 anos feitos pelo hospital aumentou muito em relação aos casos de adultos acima dos 40 anos, considerados mais comuns. O professor ressalta que os procedimentos de proteção são os mesmos para adultos e crianças. ‘‘O ideal seria as crianças levarem para a escola as escovas de cabelo, de dentes e também o filtro solar’’, observa.
Os tratamentos dermatológicos feitos durante o ano não precisam ser interrompidos no período do verão. Segundo Ediléia devem ser deixados de lado apenas os produtos de prevenção ao envelhecimento e de combate a manchas. Também devem ser evitados produtos aos quais as pessoas apresentam alguma sensibilidade. Pele irritada, por qualquer motivo, deve ficar longe do sol. A dermatologista ainda adverte que alguns antibióticos usados no tratamento de acne podem causar reações.
No Brasil, o índice de mortalidade associdado ao câncer de pele, o tipo de tumor mais comum entre os brasileiros, é relativamente baixo. De acordo com especialistas ouvidos pela Agência Estado, isso acaba provocando dois tipos de problema na área de saúde pública. Um deles é a falta de estatísticas que possam ajudar na compreensão da epidemia. O outro é a desatenção, por parte de médicos e pacientes, em relação aos sintomas da doença.
‘‘De maneira geral, há uma tendência a subestimar as lesões de pele’’, afirma o professor Neves. ‘‘As pessoas têm a sensação de que a doença não é tão grave quanto um câncer de estômago ou pulmão’’. Ele também observa que o problema é agravado pelo fato de sempre se associar a pele a questões estéticas.
De todos os tipos de câncer, o dermatológico é o que apresenta maiores chances de um diagnóstico precoce. Não é necessário nenhum exame complexo ou invasivo. Um olhar detalhado do médico, principalmente os de atendimento primário (clínicos gerais, pediatras, ginecologistas), ou mesmo do próprio paciente, pode detectar manchas ou cicatrizes suspeitas. ‘‘Teoricamente, o câncer de pele não deveria existir mais’’, diz o dermatologista Marcus Maia.
Estima-se que 100 mil pessoas descubram algum tipo de tumor dermatológico todos os anos, mas o número exato de casos é uma incógnita mesmo para os especialistas.

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