Por uma série de motivos, entre eles, a preocupação com a falta de segurança, pais deste final de século dão sinais de que vêm cuidando excessivamente de seus filhos, chegando à superproteção. Assim, adolescentes são deixados e buscados na porta de escolas e casas noturnas, ao mesmo tempo em que telefones celulares se transformam em mecanismos de cuidado a distância.
Estudiosos da área observam que pais agem, muitas vezes, movidos pelo medo do que possa acontecer com seus filhos. Temem deixá-los crescer, assumir a própria vida. Tanto medo pode ser a justificativa para que pais contratem detetives para seguir de perto a vida dos filhos. Conforme o Instituto Paulista de Adolescência, em alguns escritórios de investigação, até 10% da clientela são de pais querendo sondar a vida dos filhos.
Pesquisa recente realizada com adolescentes alemães concluiu que o cuidado extremo tem resultado em jovens sofrendo de fobia social que se caracteriza por um transtorno da ansiedade. Entre os sintomas da fobia social estão taquicardia e tonturas, que aparecem sempre que a pessoa é alvo de atenção, seja assinando cheques, comendo ou bebendo em locais públicos.
Bom senso ‘‘Toda superproteção gera insegurança’’, diz a psicóloga londrinense Neide Zucoli. ‘‘Superproteger é colocar o filho numa redoma, impedindo que ele vivencie situações próprias da fase em que se encontra. Pais que agem assim impedem que a criança e o adolescente desenvolvam a capacidade de cuidar de si próprios, considerando o nível de maturidade de cada faixa de idade.’’
Segundo a psicóloga, os pais precisam cuidar de seus filhos, mas esse cuidado, num sentido amplo, não significa superproteger. Cuidar implica atender às necessidades do filho que são, também, de desenvolvimento da autonomia. ‘‘Se eu cuido para que meu filho desenvolva autonomia, estou cuidando dele, sem estar superprotegendo-o’’.
Neide ressalta que o normal é que o adolescente vivencie situações no meio em que está inserido. É no ambiente em que vive que vai aprender a ter autoconfiança, autonomia e discernimento. ‘‘O cuidar é prioritário porque, ao mesmo tempo, adolescentes estão expostos a muitas situações de perigo, a uma sociedade muitas vezes sádica e inescrupulosa. O fundamental é a busca do bom senso visando avaliar situações extremas de superproteção ou de indiferença. Há pais que não permitem que o filho ande uma quadra sozinho; outros, muito permissivos, nem imaginam onde possam estar os filhos que saíram para uma noitada. São dois extremos’’, avalia.
Frustrando desejos Antes mãe em tempo integral, a mulher hoje exerce funções fora do lar, o que vem reduzindo o tempo de dedicação aos filhos. Sentindo-se culpados por tanta ausência, os pais, muitas vezes, têm dificuldade de impor limites aos filhos. O adolescente necessita do limite tanto quanto a criança. Estabelecer limites, frustrar desejos, são também formas de cuidar.
Experimentando uma intensa fase de ansiedade e angústia, o normal no adolescente, observa a psicóloga, é extrapolar todos os limites estabelecidos, e os pais têm que estar preparados para as reações emocionais às frustrações dos desejos deles. ‘‘Vem aí uma explosão de raiva, mas, ao mesmo tempo, o filho sabe que está sendo cuidado.’’
Aguentar as frustrações tem o efeito de saber esperar por algo que não se concretizou naquele momento, mas que ainda pode ser alcançado. Neide frisa que quando a pessoa não desenvolve tolerância à frustração, tem que esvaziar a ansiedade rapidamente e, então, começam os desajustes.
A psicóloga chama a atenção para a importância de uma base familiar afetiva o que, contudo, não exclui a presença do conflito. É importante dar aos filhos amor e limite. ‘‘Amar não significa apenas passar a mão na cabeça e fazer tudo pelo filho. O amor envolve carinho, toque físico, carinho, firmeza e rigidez’’, salienta.

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