A população de gordos brasileiros aumentou nos últimos tempos. E as doenças relacionadas ao excesso de peso já matam mais de 80 mil pessoas por ano, segundo a Associação Brasileira para Estudos da Obesidade (Abeso). Muitos desses casos vêm da infância. Uma pesquisa, com dados levantados por um deputado estadual (que quer proibir a venda de salgadinhos industrializados, frituras e doces nas cantinas de escolas públicas do Estado de São Paulo) revela que 80% das crianças e jovens obesos serão adultos obesos.
A médica endocrinologista Sandra Marcantônio alerta sobre a importância de prevenir o problema desde os primeiros anos de vida. ''Antes, acreditávamos que tínhamos que nos preocupar mais com a questão na puberdade. Hoje, os estudos mostram que o controle deve começar aos três ou quatro anos de idade para que a obesidade seja reversível'', informa. Na hora de avaliar se a criança está acima do peso, Sandra utiliza uma tabela com números diferentes para meninos e meninas, baseados em idade, peso e altura. ''Se a estatura estiver dentro da média e o peso, cinco quilos acima do preconizado, já se deve intervir de alguma forma'', explica.
De acordo com ela, os índices alarmantes de obesidade são consequência da vida moderna. Por questão de segurança, hoje os pais mantêm os filhos dentro de casa (e não brincando na rua). Os pequenos ficam, portanto, mais tempo na frente do computador e da televisão, expostos à propaganda de guloseimas. ''É um círculo vicioso: a criança come mais e gasta menos calorias'', diz a médica. E engana-se quem pensa que o problema atinge apenas as classes mais abastadas. O erro alimentar, segundo Sandra, está acontecendo em todas as camadas da população. ''A incidência de crianças pobres com obesidade, atendidas nos hospitais-escola, também vem aumentando. Foi feito um estudo no pronto-socorro do Hospital das Clínicas, de São Paulo, e constatou-se que 15% delas já têm algum grau de sobrepeso'', afirma.
Limites A mudança de hábitos alimentares, avisa a endocrinologista, é a maneira mais eficaz de combater o problema. O grande desafio enfrentado pelos pais é descobrir como fazer isso. A auxiliar administrativa Carla Dantas de Souza vivencia a situação com o filho Ygor, 4 anos, 25 quilos, 1.10m. ''Ele come arroz, feijão, legumes e verduras. Só não é muito chegado em carne e frutas. E é viciado em refrigerantes. Esse é o meu maior problema'', diz. Além disso, entre as refeições não podem faltar chicletes, bala, pipoca, amendoim... ''Vai o que tiver'', conta Carla. O resultado não tardou a aparecer. O último exame de sangue detectou que Ygor está com colesterol no limite. Como controlar a boca de uma criança desse tamanho?, pergunta a mãe.
''O ideal não é proibir, mas colocar regras, estipular limites nas quantidades ingeridas'', responde a endocrinologista. Segundo ela, existem muitas formas de modificar os maus hábitos alimentares, sem precisar, necessariamente, dizer não. Diminuir o número de vezes que se oferece um alimento é uma delas. ''A criança pode comer doce diariamente, desde que os pais dosem as porções e os horários'', ensina.
Sandra observa que, ao contrário do que os pais imaginam, fazer esse controle é bem mais fácil na infância. ''Se a gente conseguir fazer com que o peso estacione, no decorrer do crescimento esse peso vai ser redistribuído e passará a ser proporcional à nova estatura'', explica. É claro que os resultados serão mais satisfatórios se houver motivação. ''E isso acontece quando a criança começa a ganhar apelidos na escola, a ser chamada de gordinha, a querer usar roupas iguais às da amiga e a não encontrar numeração para ela'', enumera Sandra.
Efeito sanfona Quando a vaidade entra em jogo, tudo fica mais fácil. E como hoje as crianças, principalmente as meninas, estão mais precoces, isso não tarda a acontecer. ''Muitas crianças pequenas chegam aqui dizendo: 'não quero mais ser gorda''', relata a médica. De acordo com ela, ao descobrirem que não terão que abrir mão do que gostam, os pequenos sempre se dispõem ao tratamento. A endocrinologista avisa que não existe um cardápio padrão ou uma receita mágica para emagrecer. É preciso avaliar cada caso individualmente. ''Se é uma criança que não faz atividade física, basta começar a fazer. Se ela come excessivamente, é só controlar a ansiedade'', diz.
Essencial é que os pais se conscientizem de que não adianta querer que o filho emagreça sem modificar os hábitos da casa. ''Existe um estudo médico provando que quando os pais são obesos até o animalzinho de estimação é obeso. Como querer que a criança não seja?'', questiona Sandra.
De acordo com ela, é preciso desfazer a idéia errônea de que a criança gordinha vai emagrecer naturalmente na adolescência. ''Se deixar por conta da fisiologia do crescimento e continuar cometendo os mesmos erros alimentares, o adolescente vai se tornar um adulto obeso. ''Na puberdade, se atinge o volume máximo das células gordurosas. A partir de então, elas se multiplicam. E o processo fica cada vez mais difícil de ser revertido. É que o emagrecimento, a partir dessa fase, ocorre às custas da diminuição do volume das células de gordura, e o estímulo para voltarem ao normal torna-se constante. É o conhecido efeito sanfona de engorda-emagrece. n

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