Professor popstar
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quinta-feira, 13 de outubro de 2005
Karla Matida<br>Reportagem Local 
A menos de um mês da primeira fase do vestibular da Universidade Estadual de Londrina (UEL) nada mais natural que os candidatos às concorridas vagas estejam estudando muito. Nada de descanso ou a tal semana do saco cheio para quem planeja entrar logo para a vida universitária. ''Pensem nas festas da medicina no ano que vem'', anima o professor Ronaldo Ciciliato, que deixou de ir pescar no Pantanal com uma turma de amigos para dar aulas. ''Chorei quando vi o ônibus ir embora'', brinca. É o que basta para os alunos sorrirem e entrarem no pique do professor. ''É preciso dosar com brincadeiras e tiradinhas'', ensina Ciciliato.
A paixão pela profissão tem esses sacrifícios como a não-viagem para o Pantanal. ''É uma relação de amor e de gostar do que se faz'', explica Ciciliato, que acredita que empatia e confiança do aluno são essenciais. Professor há 25 anos, ele sabe que sua matéria geopolítica o transforma numa antena para os alunos. 'Vestibular não é mais 'decoreba', é preciso saber o que está acontecendo no mundo'', afirma.
Professor de geografia dos mais queridos é só dar uma olhada no Orkut (site de relacionamentos) e descobrir a comunidade Eu amo o Guerra, que tem mais de 2.500 membros, entre alunos e ex-alunos , Sidnei Guerra costuma dizer que ''tudo o que vai, volta''. Brinca com os alunos dançando, fazendo teatro ou cantando o hino de Ubiratã (PR), sua cidade natal e recebe risadas em troca. Com paciência, atende todos os alunos que o cercam após 1h30 de aula, que preferem questioná-lo a sair para o lanche do intervalo. O caminho que o leva até a sala dos professores também é acompanhado de perto pelos estudantes. Os mais extrovertidos chamam a atenção, elogiam. Mariele Troiani, candidata a uma vaga no curso de direito, conta que a maneira como o professor passa o conteúdo ''é mais fácil de memorizar''.
''O professor cativa o aluno quando é autêntico'', diz Guerra. ''Na classe, eu sou eu'', conta Guerra, que numa mesma aula pode imitar um bêbado ou então sugerir uma dor de barriga. Não por acaso, na semana passada comandou um espetáculo de teatro, baseado no texto de Machado de Assis, envolvendo alunos e professores. ''É um projeto de trazer a família para dentro da escola'', explica o professor, que planeja mudar o jeito que os alunos vêem o colégio. ''Eles devem ter vontade de vir para a escola'', relata. Para quem tem a sala em plena manhã chuvosa de um sábado pré-semana do saco cheio, os trilhos indicam caminho certo.
Bom humor é marca registrada da professora de português. De boné virado para trás que pegou emprestado de um aluno , Vilma Franco ainda tem um pouco de dificuldade para falar por conta de uma cirurgia no maxilar. E isso vira material para fazer mais graça entre uma dica e outra de verbos e questões gramaticais. ''Queimei a língua com batata quente'', diz a professora, que logo começa a fazer imitações. Ela, que já chegou na sala de aula vestida de Marilyn Monroe, preparava uma surpresa para a semana do saco cheio. ''Vou usar uma roupa de espuma, para parecer mais gorda, e peruca''.
Quando começou a dar aulas, Marco Antonio Mendonça tinha quase a mesma idade dos alunos. Aos 19 anos, ainda careca do trote do vestibular, aceitou convites para monitorar algumas aulas e aumentar a renda. ''Foi por acaso que comecei a dar aulas'', conta. Dezesseis anos depois, Marco Antonio tem alunos espalhados não só em Londrina como em todo Paraná. Passa a semana viajando entre Paranavaí, Cascavel, Toledo e Primavera. ''Dar aulas é viciante'', avisa. Querido entre alunos e ex-alunos, o professor lembra que é preciso usar a linguagem deles. ''Desde o começo procurei romper com o tradicional'', explica.
Apesar de fazer muita graça com os alunos, nenhum dos professores esquece que o conteúdo é importante. ''Eles sabem quando é hora de prestar atenção'', garante Vilma. Para Ciciliato há até uma fórmula não-oficial: uma brincadeira entre intervalos de 15 a 20 minutos. ''Hoje os professores têm uma postura diferente na sala do que há 25 anos. É preciso oferecer um algo mais para motivar, como recursos audiovisuais'', conta. No Dia do Professor quem acaba ganhando um presente são os alunos.


