Procuram-se mães
Procuram-se mães
Para cuidar de crianças abandonadas e que não conseguiram ser adotadas
Sílvia Herrera
Agência Estado
Arquivo Folha
Foi pensando nas crianças abandonadas que o educador austríaco Hermann Gmeiner idealizou, em 1949, as Aldeias Infantis SOS. Ele queria dar um lar às crianças que perderam suas famílias na 2ª Guerra Mundial. Gmeiner morreu há 11 anos, mas conseguiu
transformar seu sonho em realidade. Hoje, as Aldeias estão
espalhadas em 120 países, totalizando 360 unidades, 15 só no Brasil. Aqui cuidamos de 3.100 crianças e, para que este número aumente, precisamos de mais mães-sociais. Em Porto Alegre, uma casa está fechada por isso, explica Kátia Maria de Campos, assistente de comunicação e responsável pelo trabalho com os adolescentes da entidade. Mãe-social é uma profissão regulamentada, e o essencial é que a candidata goste de crianças, esclarece Kátia.
Sou muito agradecido por morar aqui porque tive a chance de entrar numa boa escola. Agora, também vou trabalhar. Vou ser instrutor de informática na escolinha, lá na sede das Aldeias, na Vila Mariana, diz William Silva Santos, 14 anos, um dos vários adolescentes que moram na Aldeia de Rio Bonito (SP). As Aldeias Infantis SOS chegaram ao Brasil há 30 anos e apresentam um índice elevado de sucesso. Noventa por cento das crianças que foram criadas nas Aldeias conseguiram um bom emprego e até já se casaram, revela Kátia.
Esse é um dos motivos da escolha das Aldeias para receber o prêmio Kanitz, que será entregue no dia 26 de maio, para as 50 melhores entidades beneficentes atuantes no Brasil. A Aldeia Infantil SOS é uma instituição civil, de direito privado e sem fins lucrativos, que tem por finalidade básica atender gratuitamente as crianças em situação de abandono. Seu princípio filosófico é bem simples: toda criança precisa de um lar, de uma mãe, de uma família.
Mas por que apenas uma mãe e não um casal-social? Depois de muitas pesquisas, foi constatado que a criança se sente discriminada pelo filho natural do casal e, também, se já é difícil encontrar uma mãe-social imaginem um pai e uma mãe,destaca Kátia. Cada Aldeia é localizada em uma comunidade ou nas proximidades, tem de 12 a 15 casas-lares. Cada casa tem uma família chefiada pela mãe-social e cada aldeia tem um dirigente.
Metas Quando atinge 14 anos, o adolescente é transferido para a Casa da Juventude, onde aprenderá uma profissão, entre outras coisas, sem perder o vínculo com sua família. No momento, nossa grande meta é a profissionalização dos jovens. Estamos prevendo que daqui a cinco anos, 80% da nossa população terá entre 15 e 18 anos e vai precisar de uma preparação para entrar no mercado de trabalho, salienta Luiz Marcos Medeiros Carvalho, atual gerente do conjunto de casas-lares da Aldeia Infantil SOS de Rio Bonito.
As Aldeias não são nenhum tipo de internato ou quartel-general, e até hoje não houve um caso sequer de fuga. As crianças podem entrar e sair para estudar, brincar ou passear, e as mães têm um dia de folga por semana. A intenção é que tanto as mães como os filhos se sintam realmente em casa. A Aldeia dá toda a infra-estrutura - casa, alimentação, assistência médica e dinheiro para as despesas -, e a mãe-social é registrada, tem todos os direitos trabalhistas e ganha um salário mensal na faixa dos R$ 500,00. Nossa única exigência é que ela não leve seu namorado, se tiver um, para a Aldeia. Mas isso não significa clausura. Incentivamos que as mães recebam visitasde seus familiares e amigos. A convivência com pessoas de fora é muito boa para as crianças, resume Kátia.
Gratificante As pessoas, muitas vezes, não entendem qual é o meu trabalho, conta Juraci da Silva, a mãe-social mais recente da Aldeia de Rio Bonito, que cuida de cinco crianças de 9 a 14 anos. Dizem que é muito sacrificante, que a gente fica presa, que é difícil cuidar de crianças carentes. Eu não acho. É gratificante. Segundo as normas das Aldeias, para ser uma mãe-social a mulher deve ter no mínimo 25 anos, ser solteira, viúva ou divorciada, sem filhos menores de 18 anos, ter 1º grau completo, disponibilidade para morar numa das Aldeias e, principalmente, adorar crianças. Tem de estar claro para as pessoas que se candidatam que elas não vão poder se casar durante um tempo, avisa Kátia.
Cada mãe tem de cuidar de até nove crianças, que são encaminhadas pelo juizado de menores à entidade. São aquelas crianças, por volta dos 6 e 7 anos, que ficariam morando no orfanato porque não foram adotadas. Geralmente, seus pais morreram ou foram presos, ou são crianças que sofreram maus tratos, conta Kátia. Uma das preocupações das Aldeias é colocar os irmãos na mesma casa. Cuido de cinco crianças, mas durante os oito anos em que atuo como mãe-social já cuidei de 14, e minha maior alegria é ver meus filhos bem, avalia Lídia Mityo Endo, uma da mães mais antigas.
Vocação O trabalho da mãe-social é ser mãe. Acordar os filhos para ir para escola, fazer o café da manhã, o almoço, pegar no pé, mandar escovar os dentes, mandar estudar, ajudar nas lições, passear, preparar aqueles bolos maravilhosos e, é claro, dar muito amor. E para aprender a fazer tudo isso certinho, além de ter a vocação para ser mãe e vontade de ajudar essas crianças, a candidata, depois de recrutada, faz um treinamento de, no mínimo, dois anos, no qual aprende desde economia doméstica a educação sexual.
Quando a mulher é selecionada para o treinamento, que dura dois anos, ela começa a ganhar R$ 240,00 e tem a função de estagiária. Depois é promovida para mãe-substituta e seu salário aumenta para R$ 319,00. Nesta função permanece de seis a nove meses, e depois torna-se mãe-social, fala Kátia.
Como ajudar Se você não preenche os requisitos para ser uma mãe pode ajudar de outras maneira. As Aldeias aceitam trabalhos voluntários de médicos, enfermeiras, dentistas, pedreiros, pintores, encanadores, eletricistas, entre outros profissionais. Aceitam também doações em dinheiro, que devem ser depositadas no Banco Bradesco, agência 227-5, conta corrente 80158-5. Ou ainda aceita novos Amigos SOS - pessoas que fazem doações mensais fixas que variam de R$ 1,00 a um salário mínimo, e Padrinhos SOS - pessoas responsáveis por uma criança e que doam no mínimo R$ 50,00 por mês. Dessas dinheiro, 40% vão imediatamente para a criança gastar e 60% vão para uma poupança. A entidade também aceita doação de roupas.
Endereços:
Escritório Nacional de Coordenação
Rio de Janeiro - RJ (021)537.1341
Escritório de São Paulo, (011) 574.8199
Aldeias Infantis
Goierê (PR)- (044) 522.1365/1763
Manaus - (092) 651.3316
Bahia/Salvador - (071) 521.2024
Brasília - (061) 272.3482 ou 273.9061
Jacarepaguá (RJ) - (021) 445.0704
Juiz de Fora (MG) - (032) 224.7240
Paraíba/João Pessoa - (083) 214.2466
Pedra Bonita/Rio de Janeiro - (021) 493.0807
Poá (SP) - (011) 463.1641
Porto Alegre (RS) - (051) 340.2967
Rio Bonito (SP) - (011) 520.0026
Rio Grande do Norte/Caiacó - (084) 421.2327
Santa Maria (RS) - (055) 221.5189. Escritório - (055) 222.7101





