Privacidade acima de tudo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 06 de dezembro de 1996
Celso Mattos 
Desde que surgiu, o telefone celular virou mania nacional. É difícil encontrar alguém que ainda não se rendeu à praticidade desta invenção que criou novos hábitos e que a cada dia oferece mais facilidades às pessoas. Apesar dos incovenientes provocados pelo uso indisciplinado do aparelho, o celular revolucionou o mundo das telecomunicações. No entanto, existem alguns profissionais que ainda resistem em usá-lo, dispensando a comodidade e o status oferecidos.
O médico cirurgião-vascular Domingos de Moraes Filho diz que ao contrário do computador que facilita a vida, o celular mais atrapalha do que ajuda. As pessoas não sabem a hora de ligar e, geralmente, telefonam para falar coisas sem importância. Isso não quer dizer que estou renegando a tecnologia, mas sim privilegiando minha privacidade. Segundo Domingos, para os médicos que atendem urgências, o celular é fundamental. Este não é o meu caso. Atualmente, estou trabalhando apenas com ultra-som vascular, portanto, tenho clientes e não pacientes.
Mão na roda Desde que deixou de fazer cirurgias e de realizar plantões, Domingos aposentou o bip e a secretária eletrônica. Ela está desligada há uns seis meses. As pessoas que realmente precisam falar comigo sabem onde me encontrar. O número do telefone do meu consultório está na lista telefônica. O médico explica que o celular é muito bom para fazer ligações e não para receber. Quando a gente está em um lugar onde não há um telefone por perto e acontece alguma coisa como, por exemplo, o carro apresentar algum defeito, o celular é uma mão na roda. Minha mulher tem um, e sempre que saímos à noite levamos o aparelho para que nossos filhos possam nos encontrar mais rápido, no caso de urgência, diz Domingos.
Ao contrário da maioria das colunistas sociais, Lia Mendonça ainda não aderiu ao celular. Sou uma pessoa muito discreta e não gosto de ficar falando em público assuntos particulares e nem profissionais. Além disso, a gente perde a privacidade. O grande problema do celular é o seu uso indisciplinado. As pessoas ligam nos horários e nos lugares mais incovenientes. É muito desagradável estar em uma reunião ou em outro evento qualquer e o celular ficar tocando dentro da bolsa, afirma a colunista.
Lia Mendonça ressalta que considera o celular uma invenção maravilhosa, mas que ainda não conseguiu conquistá-la. Pode até ser que um dia eu mude de idéia e resolva comprar um. Mas, por enquanto, minha secretária eletrônica continua sendo muito útil. Segundo a colunista, as pessoas que precisam falar com ela sabem onde encontrá-la. Se não estou em casa, estou no trabalho. E quando estou participando de algum evento social, basta deixar um recado na secretária eletrônica que eu darei o retorno. Existem pessoas que têm celular, mas deixam o aparelho desligado a maior parte do tempo, então é melhor não ter, diz Lia Mendonça.
Fura-fila Para o médico otorrinolaringologista Orley Baena Ferraz, de uma forma geral, o telefone é um fura-fila. Quando estou numa fila esperando para falar com o gerente do banco e, finalmente, chega a minha vez, o telefone toca e tenho que ficar esperando por mais um tempo. Acho o celular uma grande invenção, mas a secretária eletrônica é melhor ainda. Afinal, ela atende a ligação e anota o recado, respeitando minha privacidade. Tenho uma há 15 anos, diz o médico.
Orley Ferraz garante que nunca pensou em comprar um celular. Meus pacientes têm os números dos telefones do consultório e da minha casa. Além disso, eu não atendo casos de muita urgência. Para o médico, o celular é um invasor. Às vezes, estou no clube jogando uma partida de tênis com um amigo, o celular dele toca e o jogo precisa ser interrompido. Na maioria dos casos, é a mulher perguntando se ele vai demorar para ir almoçar. Pior são aqueles que usam celular enquanto dirigem. Acho isso um absurdo. Ninguém é tão importante a ponto de precisar ser encontrado 24 horas por dia. Pra mim, o celular não é necessário. Estou vivendo muito bem sem ele, garante Orley.


