Prisão de ventre
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de setembro de 2000
Rosângela Vale 
O humor não é dos melhores, principalmente quando o zíper da calça não fecha e as cólicas são constantes. Viajar, então, é um tormento, pois na grande maioria dos casos, o problema só tende a se agravar com a troca de ambiente. Considerada um dos grandes incômodos da vida moderna, a prisão de ventre ou constipação intestinal atinge 27% dos brasileiros cerca de 43 milhões de pessoas segundo dados do Instituto Internacional de Pesquisa I+G.
As mulheres são indiscutivelmente as mais afetadas (66% dos casos) porque são as maiores vítimas do corre-corre diário: dividindo-se entre o trabalho e as tarefas domésticas, não sobra tempo para seguir a indicação médica de gastar alguns minutos no banheiro depois das refeições. Sem falar nos pudores higiênicos que acometem o sexo feminino: banheiro público, nem pensar. As consequências são inevitáveis. Esse contínuo retardar de evacuação pode tornar o intestino ainda mais lento, adverte a médica gastroenterologista Rossana Amin Graciano de Resende. De acordo com ela, a constipação intestinal caracteriza-se pela interrupção das evacuações por mais de três dias.
Ela explica que quanto mais tempo as fezes permanecem no intestino, mais água o organismo absorve dessas fezes, tornando-as endurecidas e ressecadas. Quando isso se torna um hábito, pode provocar dor na evacuação e até hemorróidas, diz Rossana, que enumera as várias causas da prisão de ventre: alimentação pobre em fibras, baixo consumo de água, falta de atividade física, ingestão de medicamentos antidepressivos e estresse.
Segundo a médica, o problema pode atingir todas as faixas etárias e, dependendo da fase da vida, tem uma causa específica. Na infância, prender o intestino se torna um mecanismo para chamar a atenção dos pais. Dos 16 aos 45 anos período em que o problema é mais comum, chegando a 60% dos casos a razão mais frequente é o ritmo de vida acelerado. Rossana observa que entre as causas há ainda uma patologia, atualmente em estudos, chamada de síndrome do intestino irritável. O nosso subconsciente manda mensagens do tipo: hoje estou ansiosa, ou, acordei deprimida. E esses estímulos acabam acelerando ou retardando o funcionamento do intestino.
A médica informa que o tratamento deve ser feito com medicamentos à base de fibras, ingeridos diariamente. E acompanhados de uma dieta também rica em fibras, com muita verdura, leite e derivados, cereais à base de aveia e frutas como mamão, laranja e ameixa preta. Segundo Rossana, as fibras são importantes porque não são absorvidas, ou seja, são eliminadas totalmente pelo organismo, aumentando o bolo fecal. Isso é que vai estimular o intestino a funcionar. Está comprovado que quem se alimenta com muitas fibras e evacua normalmente tem menos chances de ter um câncer de intestino, porque evita que as toxinas fiquem por muito tempo no organismo, observa.
Já os laxantes são contra-indicados por serem demasiadamente irritantes. O intestino funciona através da irritação de suas paredes. E para provocar esse estímulo constantemente, é preciso ir aumentando a dose do medicamento, explica Rossana. Ou seja, chega um momento em que ele não faz mais efeito, além de poder causar cólicas, dores abdominais e acúmulo de gases.
Para ajudar no tratamento, é fundamental manter a rotina de ir ao banheiro todos os dias na mesma hora, principalmente após as refeições. Quando nos alimentamos, há um estímulo que se chama gastro cólico: o aumento do volume do estômago, causado pela alimentação, estimula a parte final do intestino a funcionar, levando à evacuação, explica. Rossana garante que, ao se adquirir esse hábito, a tendência é que o funcionamento do intestino se normalize.


