Sinval e Fátima, personagens da novela "Passione", interpretados pelos atores Kayky Britto e Bianca Bin, descobrem que são primos-irmãos e a possibilidade de gerar filhos com alguma doença genética fez com que o casal procurasse um médico geneticista para saber que rumo dar ao relacionamento.
É fato que o conto global pouco reflete o mundo real. Porém, os especialistas da área, embora agradeçam a chance de popularizar o assunto, criticam a forma como o autor abordou os riscos de uma união entre primos e o aconselhamento genético do casal em rede nacional. Na cena, o médico revela aos personagens que os riscos são altíssimos, e sugere que optem pela adoção quando decidirem ter filhos. Salmo Raskin, diretor da Sociedade Brasileira de Genética Médica (SBGM), explica que os riscos são, na verdade, relativamente baixos. "Foi interessante quebrar o tabu sobre o tema em uma novela. Nos consultórios, a falta de informação é comprovada diariamente. A maioria das pessoas entra na consulta temerosa, baseada nos altos riscos divulgados pelo senso comum. Após o aconselhamento, ficam aliviados".
Casais sem relação de parentesco têm 3% de chance de ter filhos com alguma anomalia genética. Para os consanguíneos, ou seja, pessoas que são parentes pelo sangue, o risco dobra, e passa a ser de 6%. "É errado dizer que o risco é alto. Pelo contrário. A maioria dos casais tem 94% de chances de ter filhos com nenhuma doença genética", explica.
Wagner Paiva, professor de genética do curso de Medicina da UEL e coordenador do Serviço de Aconselhamento Genético do Departamento de Biologia Geral do Centro de Ciências Biológicas da Universidade, concorda com o especialista e explica que, no geral, no mundo, a incidência de casamento entre primos varia de 1 a 10 em cada 1000. No entanto, em algumas etnias ou populações muito pequenas, essas taxas tendem a ser maiores. "O risco nestes casos é em torno de 5% (o dobro da população em geral) para o nascimento de uma criança com doenças autossômicas recessivas, natimortos e malformações congênitas. Para os casos de primos de terceiro grau ou parentes mais remotos já é algo semelhante ao risco populacional geral".

Falta de critérios
A SBGM critica o modo como foi sustentada a tese de que os personagens Fátima e Sinval terão filhos com alguma doença genética. Além disso, defende Raskin, nenhum geneticista orienta seus pacientes sobre qual atitude tomar. "Optar pela adoção é uma decisão pessoal. Não cabe ao especialista sugerir absolutamente nada, apenas apresentar os riscos".
Para o professor da Universidade Estadual de Londrina, os profissionais não devem aconselhar o paciente e/ou seus familiares a tomarem decisões, e sim informar, da melhor forma possível, a fim de que eles tomem a decisão mais apropriada conforme seus princípios, condições financeiras e psicológicas. "Para isso, a informação e o suporte são as palavras-chave no ato do aconselhamento genético", completa.
Mayana Zatz, professora titular e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células Tronco da Universidade de São Paulo (USP), também condena a postura apresentada na novela. A médica defende que o papel do geneticista é explicar os riscos em uma linguagem clara, objetiva, apenas. "Não aconselhamos ter ou não filhos. Apontamos o coeficiente de risco, é errado indicar uma postura."
Para facilitar o entendimento, a médica revela que costuma usar a metáfora das maçãs. A proposta é apresentar os riscos de uma forma mais palatável, em uma situação imaginária que ajude os casais a analisar com cautela. "Imagine que você tem um risco de no máximo 10% de gerar filhos com alguma doença genética. Pense em uma mesa com 100 maçãs. Apenas 10 delas contêm um veneno mortal. Você correria o risco de escolher aleatoriamente e comer uma das frutas?" questiona a médica. A especialista comenta que os homens tendem a avaliar as possibilidades como menos temor. As mulheres, que carregarão o bebê por nove meses, julgam os riscos altos e preferem não arriscar.

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