Primeiras letras
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sexta-feira, 26 de janeiro de 2007
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Quem já passou dos 30 com certeza se lembra bem da cartilha Caminho Suave, elaborada pela professora Branca Alves de Lima, em meados do século passado, e responsável pela alfabetização de um terço dos adultos de hoje. Entre 1970 e 1980, a cartilha vendeu mais de 40 milhões de exemplares. Na hora de resolver uma dúvida de escrita, todo mundo pensava no F de faca ou no Z de zabumba.
Para tristeza dos saudosistas, a Caminho Suave já não frequenta mais a escola. Com o surgimento do construtivismo, ela foi substituída pela ausência de material de apoio elaborado por adultos. ''Não temos um livro que seguimos como nas cartilhas. Os alunos aprendem brincando, relacionando o som com o símbolo de cada letra e sílaba'', diz a pedagoga e proprietária do Centro de Educação Infantil Terra Brasil, Nanci Mello Gonçalves.
''No construtivismo, os alunos aprendem com elementos de sua realidade. Começam reconhecendo a letra do seu nome e vão associando com outras palavras. Temos a vantagem de que as crianças já trazem muito conhecimento. Elas sabem que na garrafa está escrito Coca-Cola, por exemplo. Ninguém precisa ensinar isso. Aí é usar o som do 'co' para escrever outra palavra. Para isso usamos caça-palavras, jogos de memória'', completa a diretora e proprietária da Escola Desafio, Maria Raquel Pellissari Morais.
Dessa forma, elas garantem que o ensino fica mais próximo do mundo da criança e se torna mais prazeroso. ''Na cartilha, os alunos começavam com as letras, depois sílabas e aí frases como 'a uva do Ivo', que não faziam sentido algum. Construindo frases de sua vida, o aluno interioriza o conhecimento e se interessa mais pelo aprender'', afirma a professora de educação infantil Gislaine Moro.
Erros e correção Mesmo com a mudança de método e com um sistema mais livre e agradável, certos detalhes da língua portuguesa continuam sendo difíceis para os pequenos leitores e escritores. ''Junções como o LH, NH, e palavras com S, C, Z, G e J ainda são um problema. Mas com o tempo eles aprendem qual a letra certa para cada palavra'', garante a professora.
Se os erros continuam os mesmos do tempo da cartilha, a maneira de corrigi-los mudou bastante. Segundo Maria Raquel, as intermináveis cópias no caderno de caligrafia não existem mais. ''Se formos analisar, hoje em dia quase não escrevemos mais. É quase tudo no computador. A exigência de ter uma letra bonita não é mais tão importante. Nem para corrigir uma palavra a caligrafia é usada. Não se fala mais que tal coisa está errada ou certa. Para o aluno, o que ele fez está correto e faz sentido. Taxar de erro não ajuda'', afirma.
De acordo com Gislaine, é preciso respeitar o tempo de cada aluno e esperar o momento certo de corrigir. ''No construtivismo não existe aquela caneta vermelha no caderno marcando cada erro. O aluno é levado a perceber seu erro observando como o professor escreve ou lê e como a palavra está escrita em um livro, dicionário ou matéria de jornal. Às vezes até o colega ao lado pode ajudar'', explica.
Capacidade É assim, trabalhando em grupo, observando os outros, pesquisando, brincando e tendo seu tempo respeitado que a garotada aprende hoje as primeiras palavras, de forma mais rápida do que antigamente. ''As crianças saem do pré sabendo ler e escrever. O ensino e os alunos estão diferentes de antigamente, eles já chegam na escola sabendo muitas coisas. Não devemos subestimar a capacidade dos alunos. A alfabetização está em todo lugar e um bom professor consegue descobri-la e transmiti-la para seus alunos'', comenta Nanci.
Ainda assim, o A de abelha, o Z de zabumba, o U de e a uva da cartilha são guardados com carinho pelos trintões, quarentões e cinquentões. ''Muitos pais questionam o construtivimso e dizem que não estão vendo progresso porque o filho continua escrevendo e lendo de forma errada. Mas com o tempo eles percebem que existe uma melhora. É só ter paciência que todos os alunos chegam lá'', diz Gislaine.


