Primeira visita ao ginecologista deve ser feita ainda na infância
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de março de 2002
Rosângela Vale 
O momento certo de levar a filha ao ginecologista nem sempre é consenso entre as mães. Para a maioria, a primeira consulta só deve ser marcada depois da primeira menstruação quando, teoricamente, a menina deixa de ser criança para iniciar a vida adulta. Mas a coisa não é bem assim. Para garantir informação e saúde nos anos férteis, o ideal é procurar orientação médica ainda na infância.
Fazendo um diagnóstico precoce, é possível prevenir complicações relacionadas ao amadurecimento do eixo hormonal e de fertilidade, avisa o médico José Luís de Oliveira Camargo, especialista em ginecologia infantil e responsável pelo ambulatório do setor no Hospital das Clínicas da UEL. Segundo ele, a primeira visita ao ginecologista deve acontecer por volta dos 8 anos de idade. É a época em que a criança precisa começar a adquirir noções de convivência com o sexo oposto, observa.
Camargo chama esse primeiro contato entre a garota e o médico de consulta de orientação. Muitos pais sentem timidez, não têm habilidade para falar sobre sexo com a filha ou desconhecem a fisiologia feminina, justifica. Por isso, a ajuda de um especialista é fundamental.
Higiene e riscos O médico explica que na ginecologia infantil subespecialidade da ginecologia que vem sendo desenvolvida no Brasil há apenas 15 anos praticam-se as medicinas preventiva e curativa. A preventiva é feita através de palestras e conferências em associações e colégios, que são dirigidas às mães, avós, professoras e responsáveis por berçários. Ensinamos procedimentos de higiene da criança ao urinar e evacuar, lavagem de roupas íntimas com produtos adequados e alertamos sobre os riscos de compartilhá-las com amiguinhas ou mesmo com irmãs, informa. Tudo para evitar quadros alérgicos que, segundo Camargo, são conhecidos hoje como principais causas de coceiras e pequenos corrimentos.
O ginecologista revela que, ao contrário do que se imagina, a má higiene acontece independentemente das condições sociais da família. As mães e responsáveis têm que se conscientizar que não existe vergonha em tirar dúvidas junto a profissionais habilitados sempre que houver coceira, dor, inchaço, mau cheiro e alterações urinárias na criança, diz.
Abuso sexual Outro assunto sempre abordado nessas palestras é a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, que estão intimamente ligadas a quadros de abuso sexual. A incidência é maior do que se imagina. Muitos casos são escondidos pela própria família, afirma Camargo, ressaltando a importância de procurar ajuda nesses momentos. Sempre que houver suspeita de abuso sexual manchas na roupa da criança, mudança de comportamento em casa e na escola deve-se procurar serviços de referência, que em Londrina estão disponíveis no Pronto Atendimento Infantil (PAI), no Hospital Universitário e no Hospital das Clínicas.
Já na prática da medicina curativa, as patologias mais comumente observadas são as assaduras vulvo-vaginais, os corrimentos, as alterações urinárias e os traumatismos vaginais decorrentes de acidentes domésticos, de uso de bicicletas e de quedas que ofendem o períneo. Há também os transtornos vaginais que levam à precocidade (ou ao retardo) da menstruação e do aparecimento dos caracteres sexuais secundários, dos quais os mais importantes são o crescimento das mamas e dos pêlos pubianos, explica o ginecologista. De acordo com ele, isso pode estar relacionado a quadros clínicos onde há obesidade ou emagrecimento exagerado, crescimento excessivo ou retardado.
A melhor maneira de as mães observarem se a filha apresenta algum distúrbio hormonal é através da comparação com as coleguinhas da escola. Veja se ela é muito mais alta ou muito mais baixa que as outras, muito mais gorda ou muito mais magra, se aprende com mais ou menos facilidade, orienta. Segundo Camargo, a garotas brasileiras, em média, têm a primeira menstruação por volta dos 11 anos. O aparecimento de pêlos e o crescimento das mamas começa cerca de 1 ano antes. Se a menina estiver muito fora desse perfil, é preciso fazer um estudo para checar se a questão está ligada a atores constitucionais ou a patológicos.


