Os movimentos de liberação sexual ocorridos na década de 60, não foram suficientes para derrubar todos os tabus que envolvem a sexualidade humana. Ainda hoje, muitas pessoas ainda associam a busca do prazer individual como uma vida sexual inadequada. Por esse motivo, a masturbação continua carregada de culpa e vergonha. O lord inglês Baden-Powell, que no século 19 fundou o escotismo, apavorava os meninos com a tese de que a masturbação causava fraqueza, cegueira e sua prática poderia levar à loucura.
Discordando totalmente dessa visão, o médico ginecologista José Luíz de Oliveira Camargo, professor adjunto do curso de Medicina da Universidade Estadual de Londrina, procura deixar os adolescentes tranquilos com relação a essa prática sexual. ‘‘A masturbação, principalmente na adolescência, deve ser encarada como uma condição fisiológica. Ela faz parte do desenvolvimento social, psicológico e físico do adolescente. Portanto, ela deve ser entendida como um processo de autoconhecimento do corpo’’, afirma.
O médico ressalta ainda que o exercício da masturbação na adolescência evita a promiscuidade. ‘‘É uma forma saudável de o jovem extravasar a carga hormonal característica da idade, sem correr riscos de uma gravidez indesejada ou de contrair uma doença sexualmente transmissível’’, observa. Segundo José Luíz, os pais não devem exercer nenhuma punição física ou verbal caso surpreendam o filho ou a filha se masturbando. ‘‘É um equívoco ver nessa prática um ato vergonhoso ou pecaminoso’’, adverte.
Excesso O ginecologista lembra que a masturbação é uma atividade preliminar e necessária para o desenvolvimento da sexualidade. ‘‘É nessa prática que o menino aprende, por exemplo, o que é ereção e ejaculação. Enquanto que para a menina a manipulação do órgão genital é um aprendizado para se chegar ao orgasmo’’. José Luíz garante que a masturbação, quando praticada sem excesso, não traz nenhum dano físico. ‘‘No caso da menina, se ela usar algum objeto durante o ato, pode se machucar e também perder a virgindade. Mas, do contrário, não há problema algum’’, esclarece o médico.
Para o médico psicanalista Marcelo Castro, mestrando em Ciências Médicas na Universidade de Campinas e que vai defender tese sobre adolescência, a masturbação é uma prática universal. ‘‘Todo mundo pratica ou já praticou, só não tem coragem de admitir. Portanto, é uma incoerência pais e líderes religiosos condenarem a masturbação’’, afirma.
Mas se é tão natural assim, por que até hoje ela continua associada a culpa, pecado e vergonha? Para Marcelo Castro, a resposta para essa questão está na repressão de natureza moral ou religiosa que tem suas raízes calcadas nos aspectos inconscientes da sexualidade humana. ‘‘Mesmo os adolescentes que têm pais liberais se sentem culpados por se masturbarem. Existem pais que conversam abertamente sobre sexo com os filhos e falam, inclusive, que a masturbação é normal, mas isso não impede o adolescente de sentir vergonha’’, garante o psicanalista.
Marcelo Castro diz que a sociedade é muito injusta e até sacana com o adolescente. ‘‘Nós bombardeamos esses jovens com estímulos visuais de natureza erótica, quando não francamente pornográfica, e depois não queremos que eles dêem vazão a esses estímulos. Na verdade, a sociedade tem o péssimo hábito de negar a sexualidade do adolescente’’, critica.
Privacidade O psicanalista comenta que muitos pais querem saber como agir caso surpreendam o filho ou a filha se masturbando. ‘‘Eu digo que não tem receita para isso porque tudo vai depender de como é a relação familiar. Agora, a questão é em que circunstância isso aconteceu. Os pais não devem entrar no quarto do adolescente sem bater na porta porque ele não é mais um bebê, portanto, tem direito à privacidade. Se for no banheiro, ele deve ser advertido apenas por não ter trancado a porta’’, orienta.
Segundo Marcelo Castro, a masturbação começa a ser um problema quando ela deixa de cumprir o papel de descarga sexual e desenvolvimento do próprio corpo, passando a ser a prática preferencial de satisfação sexual. ‘‘Espera-se que à medida em que a adolescência vai terminando, a prática da masturbação vá cedendo espaço para uma relação sexual a dois. Porém, isso não quer dizer que homens e mulheres adultos não possam se masturbar. O problema é quando ela se torna o canal preferido ou exclusivo de satisfação sexual’’, afirma o psicanalista.

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