Pra lá de modernas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de maio de 1999
Francelino França 
A figura da avó sentada numa cadeira de balanço, fazendo crochê, dando conselhos e suspirando de saudades está se tornando figura do passado, amarelando numa foto no baú. As avós de hoje estão fugindo deste padrão. Se cuidam, têm auto-estima elevada, trabalham, estão sempre cheias de planos para o futuro.
O escritor mineiro Ziraldo resumiu o perfil da avó do final de milênio no livro Vovó-delícia. A netinha descreve a relação com a avó, com observações inusitadas sobre o mundo desta mulher jovem e antenada com a vida. Em síntese, a ligação entre neta e avó foi estreitada com as mudanças nas relações familiares.
A figura da avó tradicional é muito gostosa, admite Vera Almeida. No entanto, ela não se enquadra nesse biotipo. O neto Mateus, 5 anos, incrivelmente observador, não se intimida em disparar frases constrangedoras do tipo eu acho que vocês estão de namorinho, quando Vera está conversando com algum amigo.
Para comprovar a tese de que as avós de hoje são muito enturmadas, Mateus tem em Vera a referência de uma mulher de muita energia. Ela alivia seu stress com dança de salão. Vou onde tem banda e pista para dançar, afirma. Vera Almeida já constatou que homens mais velhos não conseguem acompanhar seu ritmo. Por isso, acho muito natural que rapazes mais novos se aproximem de mim para namorar, confessa.
Mário CesarA socióloga Vera Almeida não se considera avó tradicional. A cada 15 dias, ela faz a festa com o neto Mateus, 5 anosOutro fator que a distancia das avós tradicionais, é o fato de que essa vovó também vai à escola. Vera está cursando a 3ª Pós-graduação. É graduada em Sociologia, possui especialização em Antropologia e Administração, Marketing e Propaganda, Comportamento Organizacional e Logística em RH. Currículo inimaginável para as avós de tempos atrás, escoladas em prendas domésticas e que acreditavam que pingo era letra.
A cada 15 dias, Mateus dá novo colorido à agitada vida da socióloga. Antes, as avós estavam presentes 24 horas por dia. Hoje, preciso agendar compromisso com meu neto, prossegue. E se o tempo para a convivência com seu pequeno príncipe é restrito, Vera Almeida acredita que a forma de manifestar carinho é diferente. O que é importante é a qualidade do tempo que passamos juntos, constata.
Nesses encontros de intensa alegria, Vera se recorda de dois momentos de muita emoção. O primeiro, quando Mateus começou a soletrar palavras de um letreiro, durante um passeio. Outro momento surpresa foi quando o garoto, com muita naturalidade, ligou o computador sozinho, entrou nos acessórios e começou a se divertir com um jogo. Saí contando para todo mundo, disse emocionada a avó, que mesmo sendo tão moderna não deixa de corujar o neto.


