Postura e etiqueta andam juntas
Postura e etiqueta andam juntas
Não há classe social que resista a uma postura corporal inadequada
Para usar salto alto, a mulher precisa levar conta seu peso e altura, formato dos sapatos e, acima de tudo, elegância no andarAngela Raizer Barbosa
Saber etiqueta é fácil, difícil é ter classe. A opinião é da fisioterapeuta Isabel Cristina Rezende, que defende a idéia de que não adianta falar em etiqueta social se não existe etiqueta corporal. Mas, afinal, o que uma tem a ver com a outra? Praticamente tudo ou, pelos menos, uma leva à outra, argumenta. Segundo ela, quando o corpo assume uma posição incorreta, além do risco de surgirem doenças posturais, perde-se a classe.
Para Isabel Cristina, que tem especialização na França sobre cadeias musculares e trabalha há 15 anos como fisioterapeuta, a partir da postura existe uma modificação de comportamento, na maneira adequada de andar, sentar e se comportar socialmente, não só numa festa como no trabalho, e até mesmo em casa. Etiqueta não é só saber arrumar uma mesa, é preciso adotar hábitos posturais adequados até na hora de servir um cafezinho, afirma.
Saia com short O hábito de analisar profissionalmente a postura das pessoas fez com que Isabel Cristina Rezende observasse mais detalhamente os movimentos diários, como andar e sentar, das garotas de um colégio onde estuda sua filha. Desse exercício surgiu a idéia de desenvolver um trabalho com um um grupo de 37 meninas, na faixa etária de 10 a 12 anos. Ainda na fase de observação, verificamos que grande parte das meninas sentava de pernas abertas, sem nenhum constrangimento, mesmo usando saia, que é o uniforme do colégio. Depois, constatamos que elas sentavam assim tão despreocupadamente porque usavam short por baixo da saia. Mas quem olhasse para elas, via apenas uma postura deselegante, uma forma despudorada de sentar para uma garota, revela Isabel Cristina. Aconselhadas a deixar de usar saia com short, um mês depois elas passaram a sentar corretamente.
Ela explica que a faixa etária das garotas envolvidas no trabalho envolve grandes transformações - elas estão deixando de ser meninas para começar a ser mulheres - e é o melhor período para elas aprenderem a posicionar corretamente o corpo. Segundo a fisioterapeuta, modificações no currículo escolar, estudar várias horas por dia, carregar materiais pesados e as próprias transformações físicas do crescimento ósseo e hormonal, fazem com que a maioria dos adolescentes (80% no grupo de 37 alunas) assuma uma postura sifótica - coluna curvada e cabeça anteriorizada para frente, apoiada na mesa de estudos.
E não adianta os pais pedirem para levantar os ombros, colocar o peito para frente e a coluna no lugar, por que o jovem nessa fase só vai ouvir, não vai registrar para mudar. É preciso fazer com que o adolescente sinta a postura com técnicas corporais fisioterápicas. Chega dessa história de que os colégios estão massacrando os alunos; a solução é trabalhar a postura e o alongamento adequados, saber contrair os grupos musculares corretos, encaixar o quadril, distribuir o peso, mudar a mochila de lado, argumenta Isabel Cristina.
Etiqueta não é só saber arrumar uma mesa, é preciso adotar hábitos posturais adequados até na hora de servir um cafezinho, afirma Isabel Cristina RezendeDe salto alto Para Isabel Cristina, é preciso também adaptar o corpo aos móveis que usamos. É praticamente impossível ter um mobiliário ergonomicamente correto em todos os ambientes que usamos no dia-a-dia. Então, a melhor alternativa é adaptar o corpo às diferenças do design existentes entre um móvel e outro. Ela alerta, no entanto, que as modificações corporais não podem ser feitas aleatoriamente. É necessário fornecer ao cérebro condições de aprendizagem progressivas, com informações corretas. E só se consegue isso sentindo a própria postura.
Um caso específico é o uso do salto alto pelas mulheres, também analisado no trabalho desenvolvido pela fisioterapeuta (num teste feito com as 37 meninas, apenas três souberam andar com sapatos de salto). Existe a idéia preconcebida de que salto alto é ruim. E é, se obrigarmos o corpo a se adaptar ao que está sendo imposto externamente. Ela exemplifica o caso de uma mulher que é abrigada a usar diariamente sapatos de salto. Aos 60 anos, ela não vai conseguir pôr os pés no chão, com muitas dores, se durante o período em que ela usou esse tipo de sapato não fez os alongamentos específicos na musculatura anterior da panturilha, alerta.
Mas cada caso é um caso, é preciso levar em conta o peso e a altura da pessoa, o conforto do sapato, a altura e a forma do salto, se o sapato tem bico fino e, acima de tudo, a elegância no andar. Na opinião de Isabel Cristina, escolhendo os sapatos adequados e treinar para usá-los corretamente, a garota pode usar salto alto com frequência a partir dos 16 anos. É claro que hoje elas começam a usar mais cedo, não dá para proibir, desde que seja eventualmente, funcionando até como um treino, aconselha Isabel Cristina.





