Rosângela Vale
Talvez não exista forma mais convincente de dizer às mulheres ‘‘sejam vocês mesmas ao se vestir’’ do que propor a elas que cortem as próprias roupas. Foi o que fez o estilista curitibano Jefferson Kulig, no desfile apresentado em Londrina, no início da semana, dentro da programação do I Londrina Fashion. Mostrada no final de julho, na Casa Rhodia, em São Paulo, a coleção ganhou aprovação da mídia, mas as consumidoras não têm escondido um certo estranhamento diante de alguns modelitos pouco convencionais.
Para Jefferson, isso não incomoda. Muito pelo contrário. ‘‘Se todo mundo assimilasse minhas criações facilmente, significaria que participo do ciclo vicioso da moda’’. E isso é tudo o que o estilista não deseja. Avesso ao mundinho fashion, ele prefere se concentrar no próprio processo de criação – cuja inspiração vem de seu cotidiano – a prestar atenção em todo o burburinho que existe em torno da moda, hoje demasiadamente voltada para o glamour e o status na sua opinião. Um bom exemplo disso é o destaque dado às modelos. ‘‘Não concordo com os salários que elas ganham. Modelo, para mim, é um mero cabide para as roupas’’, alfineta.
Com 30 anos, oito de carreira e a vida toda dentro da indústria de tricô dos pais, Jefferson formou-se em Economia e sua única experiência didática na área de moda foram os dois meses que passou no Studio de Marie Rucki, em Paris. ‘‘Talvez, se eu tivesse feito uma faculdade de moda, meu processo de criação teria sofrido interferências’’, acredita ele, que acha inútil a discussão sobre a existência de uma moda brasileira. ‘‘Isso é ultrapassado. Moda é universal’’.
Fascinado por pesquisa e sempre obstinado na procura de novas estruturas, materiais e formas, o estilista passa boa parte de seu tempo em livrarias. Foi onde descobriu a obra da artista plástica Ligia Clark, com a qual se identificou imediatamente, e que serviu de referência para os conceitos de sua última coleção. Com jeito de perfeccionista, ele rejeita tendências e tudo o que possa massificar suas criações. ‘‘Quem compra minhas roupas têm cultura, personalidade. Não compra porque está na moda, mas porque acha interessante, gosta do material, da silhueta’’, define Jefferson.
Também no comando da marca Voos, mais comercial, ele pode se dar ao luxo de não se preocupar com o volume de vendas da grife que leva sua assinatura. Com show-room em São Paulo, loja em Curitiba e pontos-de-venda em todo o País, Jefferson já planeja vôos mais altos. Fez contatos com agentes que representam nomes de peso no mercado internacional, como Helmut Lang e Viviane Westwood.
Sobre o desfile, o primeiro de sua carreira, ele explica: ‘‘É uma maneira de as pessoas entenderem a minha proposta’’. O estranhamento, portanto, é até proposital. ‘‘De que adianta ir a um desfile que não te passa emoção, não te acrescenta nada? Às vezes, a pessoa nem tem condições de comprar a minha roupa, mas vai poder enxergar com meus olhos e crescer com isso’’, argumenta ele, que parece ter perdido de vez o medo das passarelas. No final do mês, interpreta os tecidos da tecelagem Douat, em outro desfile na Casa Rhodia, em São Paulo.Avesso ao burburinho fashion, o estilista curitibano Jefferson Kulig rejeita tendências e diz que é preciso educar o olhar para a moda
Paulo Wolfgang‘‘Às vezes, a pessoa nem tem condições de comprar minhas roupas, mas vai enxergar com meus olhos e crescer com isso’’, diz JeffersonA roupa conceitual de Kulig, que vem com sugestões para o corte: estilo próprio

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