Por trás do medo
No ser humano, ele simboliza os receios quanto aos próprios impulsos agressivos e sexuais
Jossânia Navolar
Na infância e na adolescência os medos específicos são comuns
Biologicamente, os animais usam o medo como uma forma de proteção. O medo lhes permite a fuga e a defesa de situações de risco. O ser humano, como um animal bio-psico-social, ao se civilizar e dominar a natureza deixou de ficar exposto aos perigos externos inerentes ao meio ambiente. O seu medo acabou voltado para a própria realidade interior. Seus perigos reais são constituídos, em grande parte, por si mesmo e pelas ações dos outros homens.
A psicóloga Mírian Perandréa Dorta diz que o medo, atualmente, tanto de crianças quanto de adultos, está voltado para os próprios impulsos sexuais e agressivos. O objeto do medo funciona como um simbolismo do receio real da própria impulsividade. ‘‘A civilização criou a repressão dos instintos e o homem passou a ter medo deles, que começaram a ser vistos de forma negativa. No entanto, como não somos diferentes dos animais, esses instintos existem e os sentimos como uma ameaça, em função das cobranças externas’’, explica.
‘‘O medo exige atenção quando ultrapassa os limites e paralisa o indivíduo’’, diz a psicóloga Mírian Perandréa DortaDentro desse raciocínio, Mírian entende que o medo é saudável, à medida que revela a contenção dessa impulsividade. ‘‘Ele só exige atenção quando ultrapassa os limites e paralisa o indivíduo’’, afirma a psicóloga. E, nesses casos, é necessário analisar cada caso individualmente, levando-se em conta a faixa etária e as situações específicas da pessoa em questão.
Terror noturno O medo começa muito cedo no ser humano. Por volta dos quatro meses de idade, é comum que a criança tenha medo de estranhos e de que a mãe vá embora. Aos 18 meses, é a vez do chamado ‘‘terror noturno’’, em que a criança acorda com pesadelos à noite, 2 a 3 vezes por semana. Na idade pré-escolar, é comum ter medo de animais selvagens, de insetos e de animais domésticos. Na fase da latência, dos 6 aos 11 anos, um tipo de medo comum é a timidez e o retraimento diante de situações novas, amiguinhos novos, entre outros.
À medida que o indivíduo vai crescendo, os medos têm uma tendência a ir diminuindo. Na fase adulta, esse sentimento vai se revelar em forma de ansiedade, em relação ao seu desempenho profissional e pessoal. Ou em relação à opinião e aprovação do outro, à morte, às perdas, separações e situações desconhecidas. No entanto, nada de forma exagerada. É fundamental ter em conta que se o medo atrapalha a vida de alguma forma, algo não vai bem e é preciso buscar ajuda.
Mírian explica que na criança ou no adolescente é natural que existam medos específicos, mas na idade adulta isso já não é tão simples.‘‘O adulto teria que dar conta desses medos. O que se espera na fase adulta, é que os conflitos subjacentes ao medo possam ter sido elaborados, de forma que já não existissem determinadas fobias e que a ansiedade não fosse paralisante‘‘, revela.
Dificuldades Medo de avião, de viajar de carro, de cachorro, de fantasmas são todos símbolos muito pessoais. ‘‘A pessoa ‘escolhe’ determinados símbolos ao longo do seu desenvolvimento, para representar as dificuldades de contenção dos impulsos sexuais e agressivos. Por isso, os medos não podem ser entendidos de forma generalizada’’, explica Mírian.
Existe um caso clássico, estudado por Sigmund Freud, o pai da psicanálise, que revela um pouco dessa simbologia. ‘‘Ao analisar um menino de 4 anos, que tinha muito medo de cavalos, Freud descobriu que, na verdade, o menino sentia medo era dos pais. O menino tinha um impulso sexual intenso (ele se masturbava muito) e os pais chegavam a amarrar suas mãozinhas com o seu próprio camisolão, na hora de dormir. O garoto foi deslocando esse medo para a fobia por cavalos’’, conta Mírian. Ela explica que quanto mais intenso for o impulso sexual e agressivo, maior é o medo. Para tratá-lo, muitas vezes é necessária a ajuda de profissionais especializados.
Violência cotidiana E o medo generalizado que a sociedade sente atualmente, em relação à violência que convive em seu cotidiano? ‘‘A sociedade tem pavor de pessoas que nunca sentiram medo porque nunca sofreram interdição dos seus impulsos. Por isso, hoje, estamos à mercê do próprio homem, devido à impulsividade cada vez mais descontrolada’’, diz Mírian.
Um dos motivos desse descontrole é o fato de a família abdicar do controle da impulsividade dos filhos. Os pais estão delegando essa função às escolas que, na verdade, não estão preparadas para isso. ‘‘Estamos vivendo um caos social. E como viver nesse caos? Não podemos combater a violência com violência. É preciso continuar a ensinar os filhos a controlar sua agressividade para com o outro, até porque essa agressividade é uma moeda de duas faces, que tanto pode ser dirigida ao outro como a si mesmo. O indivíduo capaz de matar o outro também é capaz de cometer suicídio’’, argumenta.
Míria acredita que a sociedade precisa buscar soluções urgentes para essas questões. ‘‘Nós, psicólogos clínicos, temos que sair de dentro dos consultórios e fazer um trabalho social. Se não melhorarmos o social, seremos aniquilados por ele’’, enfatiza.

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