Por dentro do divã
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sexta-feira, 07 de dezembro de 2007
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
É comum quando um artista famoso, quando fala sobre sua personalidade, revelar que se tornou uma pessoa melhor ou superou uma tragédia graças ao trabalho de um analista. Mas quem são esses profissionais e quais os caminhos que eles usam para melhorar a vida dos outros são detalhes pouco conhecidos da maioria. Existe até uma certa confusão entre o trabalho do psicanalista e do psicólogo.
Criada pelo neurologista tcheco naturalizado austríaco Sigmund Freud (1856-1939), a psicanálise visa principalmente o auto-conhecimento. Para trabalhar com a técnica é necessário muita dedicação. Depois das faculdades de medicina ou psicologia, o futuro analista tem um longo caminho para percorrer. ''Um psicanalista se forma com três pontos principais: estudo teórico, análise didática, onde o profissional faz análise com um outro psicanalista, e seminários clínicos com supervisão. Não se forma um profissional dessa área com menos de cinco anos de maneira nenhuma'', garante o psicanalista Antonio Mauro Osti.
Segundo ele, a formação correta do profissional é fundamental para que o atendimento ao paciente seja correto. ''Principalmente a análise didática, onde o futuro analista se torna paciente, é importante que seja feita com alguém capacitado. Um psicanalista precisa ter muito contato com seu mundo mental e afetivo porque é sua ferramenta de trabalho'', explica.
''Ser um analista requer uma maturidade mental muito grande e existem pessoas que não poderiam ter essa profissão. É necessário ter um dom, uma capacidade de lidar com as angústias do outro, de se aproximar dele e se manter distante ao mesmo tempo, para ver o problema de forma clara. O analista precisa ter seu interior muito bem elaborado para enxergar o outro corretamente, sem pontos cegos'', completa a psicanalista Fátima Geha.
Eles concordam que a falta desse preparo pode trazer problemas sérios. ''É como fazer uma reforma na sua casa com pessoas que não entendem direito de construção: vão aparecer problemas na estrutura e pode até haver um desmoronamento. Com o analista também. Se o trabalho não é bem conduzido, ele pode piorar a condição do seu paciente. Existem regras rígidas que o analista precisa respeitar. Um profissional jamais deve analisar amigos, parentes ou pessoas que se conheçam entre si. Ele precisa estar com a mente limpa de informações externas e trabalhar apenas com o que o paciente informa. A proximidade é fundamental para o trabalho, mas é necessário manter o papel analítico. Não é possível existir um relacionamento fora do consultório porque isso atrapalha o tratamento. O analista não pode usar seu trabalho para tirar alguma vantagem'', diz Antonio Mauro.
Diferente do trabalho do psicólogo, que busca resolver uma situação de conflito do paciente, o analista tem a função de fazer com que a pessoa se conheça melhor. ''Todos temos um lado ruim e outro bom e desenvolver o contato consigo mesmo ajuda a aceitar o positivo e o negativo de cada um. O nosso mundo interno determina a forma como vemos o mundo externo. O analista faz seu paciente entrar em contato com seu mundo interno e, com isso, ver de forma mais racional o mundo externo'', explica Fátima.
''Existem sofrimentos inevitáveis e, outros, evitáveis. Com o trabalho de um analista a pessoa passa a evitar o que pode ser evitado e a encarar os inevitáveis. O tratamento não inclui o uso de medicamentos para solucionar os problema. É o desenvolvimento emocional que faz a pessoa lidar com o problema de forma racional. Por isso, o tratamento é longo e, muitas vezes, interminável. São necessários no mínimo três anos'', garante Antonio Mauro.
Ele afirma que nem todas as pessoas precisam de acompanhamento psicanalítico e muitas não conseguem manter o tratamento. ''Todos temos um analista dentro nós e nem sempre precisamos da ajuda de outra pessoa para encarar os problemas. Fazer análise é um processo doloroso porque conhecer a nós mesmos verdadeiramente é difícil. Apenas quem tem um objetivo e muito interesse continua com o tratamento'', diz Antonio Mauro.


