Jogador de futebol de renome nas décadas de 70 e 80, Carlos Alberto Garcia destacou-se em equipes de peso como o Corinthians e o Vasco, e, na fase áurea do Londrina Esporte Clube, foi considerado um herói da cidade. Ao completar 32 anos de idade, no entanto, decidiu parar de jogar, optando por encerrar a carreira de sucesso enquanto estava no auge. Só não esperava que, ao vazio profissional, decorrente da ruptura com o futebol, se unisse um outro vazio, uma perda ainda mais dolorosa e difícil de superar.
Sua esposa, Sônia, faleceu em 1985, depois de um ano de intensivos tratamentos médicos. Garcia viu-se, então, repentinamente, sozinho, sem profissão, e com duas filhas pequenas, Patrícia e Mariana, com 5 e 3 anos de idade, exigindo seus cuidados. ''Elas pediam muito pela mãe e choravam'', lembra, ''e eu chorava junto.'' Os sogros e os amigos lhe deram muito apoio, mas cabia a ele viver integralmente esse momento.
Não foi fácil. O casal havia pensado em montar um laboratório, já que ela era bioquímica e ele parara de jogar futebol, mas esse e outros planos agora não faziam mais sentido. Seu medo, na ocasião, vendo-se tão desestruturado psicologicamente, ''era de que alguém quisesse tomar conta das meninas''. E isso, apesar de todas as dificuldades, considerava tarefa sua.
Enquanto tentava pôr um mínimo de ordem na vida familiar, as empregadas não paravam em sua casa, ''porque não aguentavam tanto sofrimento'', conta. Amigos, conhecidos e mulheres, vendo-o tão fragilizado, invadiam constantemente a sua privacidade. Mas ele resistia às investidas, por acreditar que as pessoas o procuravam unicamente por pena.
Passaram-se, assim, quase dois anos, pai e filhas num barquinho em alto mar, enfrentando tempestades. Sempre, porém, dando força uns para os outros e acreditando que voltariam a encontrar o rumo perdido.
Isso começou a acontecer quando os três conheceram Gilda, na joalheria em que trabalhava. O encantamento das meninas com a moça foi instantâneo e ele não ficou atrás. Seis meses depois estavam casados. No decorrer do namoro, as meninas chamavam Gilda de ''tia''. Assim que o pai se casou, pediram para chamá-la de ''mãe''.
Em paralelo, a vida profissional de Garcia também começou a entrar nos eixos. Logo após o casamento, a família seguiu por uns meses para Natal (RN), a caminho de um time de futebol local. ''Essa tentativa de reencontro com o futebol revelou-se um fracasso'', relembra, sem nenhuma amargura, ''em compensação, foi ótimo para reestuturar em definitivo a vida familiar''. Voltaram para Londrina, onde Garcia se estabeleceu em outro ramo de negócio. Começou como vendedor e hoje ocupa o cargo de gerente regional de um consórcio. Teve mais um filho, Gabriel, atualmente com 13 anos e que, ''por coincidência'', já está atuando no Londrina Esporte Clube. As meninas, com 21 e 19 anos, preferiram a área de Hotelaria e Turismo.
O tempo passou desde essa época tumultuada e muitas lições foram aprendidas. Entre elas, Garcia fala sobre o maior desapego que conseguiu ter pelo lado material da vida, ao qual sempre dera um exagerado valor. Por outro lado, desenvolveu a aceitação pela vulnerabilidade do ser humano. Ele sempre havia se considerado ''um intocável, nem sabia o que era doença'', comenta. Por fim, e o mais importante, aprendeu a dar um novo valor à vida familiar, ''aproveitando muito todos os momentos'', diz ele, ''e não deixando nada para depois.''n

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