Ponto de vista
Sou uma mulher solteira moderna. Pago aluguel, conta de luz, água, telefone e outras despesas femininas de primeiríssima necessidade: roupas, maquiagem, acessórios, sapatos. Ah, os sapatos... Cometo pecados mortais contra meu cartão de crédito quando me apaixono por eles. E daí se já tenho cinco pares iguais? Não, um sapato nunca é igual ao outro, ainda que cores ou formas denunciem similaridades. Quem sempre critica essa atitude (homens, é claro) nunca experimentou a sensação de poder de um salto dez sem nenhum arranhão (essa idéia me consola, embora nem sempre me convença diante da assustadora quantidade de guapos ''saindo do armário'' ultimamente...)
Como se pode ver, sou cria dos tempos modernos (e adoro os gays assumidos), descendente das feministas que queimaram sutiãs em praça pública, que batalharam por direitos iguais e construíram o caminho para a tão suada independência feminina. E, como legítima representante dessa geração de mulheres bem resolvida economicamente para quem o termo bom partido tem um sentido muito mais psicológico do que financeiro quero fazer aqui um desabafo: existe coisa mais brochante do que, ao final de um agradabilíssimo jantar quando o papo flui naturalmente, o vinho faz a sua parte e os olhares lançam promessas ter que perguntar (ou ouvir): ''Você vai pagar com cheque ou dinheiro?''
Atire a primeira pedra a mulher, por mais acostumada que esteja ao politicamente correto hábito de ''rachar a conta'' (e todas estamos), que não sente uma pontinha de desapontamento diante dessa violenta ruptura de clima de cena romântica de novela das oito. É como, sei lá, se o príncipe encantado chegasse ao castelo e, ao tirar a mocinha da torre, cobrasse dela metade do pedágio que teve que pagar para chegar lá...
É claro que, nessa altura do campeonato, todas nós sabemos que é muito mais provável encontrar sapos do que príncipes pelo caminho mas, por isso mesmo, vale a dica: você aí, garotão, quer impressionar a gata? Então, da próxima vez que o garçom trouxer a conta, tenha a delicadeza, o charme, a gentileza, o cavalheirismo de nem deixar que ela tome conhecimento do valor da noitada.
Faça com que o ato de tirar a grana da carteira, de assinar o cheque ou a nota do cartão passe quase desapercebido por ela; assuma o controle da situação, sinta-se poderoso por poder proporcionar momentos agradáveis ao alvo de suas investidas. Nem que seja só no primeiro encontro (se o relacionamento vingar, dividir as contas vai ser mesmo inevitável). As moçoilas (independentes, porém românticas) agradecem imensamente. q
*.... é a nova colaboradora da Folha da Sexta. Suas opiniões serão publicadas sempre que um assunto polêmico exigir um ponto de vista feminino, divertido e sincero.





