Poder de fogo
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quinta-feira, 06 de março de 2003
Célia Guerra<br> Reportagem Local 
Jargões como ''mulher é sexo frágil'' caíram de moda faz tempo. Até o ano passado, segundo a legislação brasileira, o homem era o cabeça da família. Também não é mais. Para o novo Código Cívil, que entrou em vigor no início deste ano, o título, ou a responsabilidade, é dos dois. Isso só confirma um fato que a sociedade vem percebendo há vários anos: a mulher não só influencia como tem poder de decisão na família.
Do ponto de vista comercial, a participação da mulher nos processos de compra e venda promoveu mudanças significativas nos hábitos do consumidor. Segundo estudos recentes realizados nos Estados Unidos, as mulheres representam 80% das decisões de compra doméstica das cuecas do marido ao carro da família, das roupas dos filhos à compra de um apartamento.
Uma outra pesquisa americana mostrou que, embora os padrões de compra tradicionais ainda continuem em voga, homens e mulheres estão mais dispostos a comprar juntos produtos que se pensava estar no controle de um ou de outro. Assim, erram as empresas que pensam na mulher como principal ou única compradora de seus produtos. Da mesma forma, as empresas que vendem produtos tradicionalmente para homens devem começar a pensar na mulher como possível compradora.
Desconfiada Para atender a essa demanda, estratégias de marketing também sofreram modificações. As mais eficazes são exatamente as que compreenderam a força e o poder de decisão dessa nova compradora. Exigente e desconfiada, a mulher precisa de muito mais referências e informações na hora da compra. O produto também precisa de mais ítens para agradar.
Citando exemplos, as montadoras de automóveis trataram de cuidar do design e da ergonomia, como o ajuste de altura no banco do motorista, de olho nas exigências e preferências da mulher. As construtoras, por sua vez, passaram a montar apartamentos decorados, antes mesmo de o edifício ficar pronto, para que a mulher pudesse perceber como o imóvel ficará depois de acabado.
''Se a mulher não gostar do veículo e do que ele oferece, pode desistir pois a venda não se confirma'', resume o diretor de uma revenda de carros importados de Londrina, que preferiu não se identificar. Para ele, no ato da compra o homem é menos detalhista, avalia apenas o investimento financeiro, ou a relação custo/benefício do veículo. A mulher já analisa a segurança da família, dos filhos, o conforto e o espaço, além de pequenos detalhes, como espelho no quebra-sol.
Perspicácia No quesito moradia, os gerentes de negócios de uma construtora, Rosângela Mattos e Leonel Teixeira, também concordam com o ''poder de fogo'' feminino. ''À mulher cabem os cuidados com a família, por isso é ela quem decide''. Para agradar não basta a beleza da decoração, mas a funcionalidade do imóvel cômodos confortáveis, área de lazer para as crianças e localização próxima a tudo. Eles destacam ainda que a mulher não tem pressa, usa de muita paciência e perspicácia no convencimento do marido.
A representante comercial Ana Lúcia Pruner prefere cautela quando se fala em poder de decisão: ''Na vida de um casal tudo deve ser compartilhado''. Porém, declara que há fatores onde a voz da mulher tem mais peso. Ela ilustra o fato contando o papel que teve na recente aquisição de um apartamento. Como a profissão do marido faz com que ele fique muitos dias fora de casa, Ana Lúcia fica encarregada do bem-estar da família.
Já advogada Ana Célia Pagnan prefere dizer que a escolha do novo carro da família, um namoro de quase dois anos, coube ao marido. Entretanto, admite que suas considerações quanto ao espaço ocupado pelos filhos e pelas malas contribuiram na decisão.
''Administramos nossos ganhos e despesas em conjunto'', afirma a servidora pública Cláudia Almeida Boal. Por isso, como as obrigações são divididas, ela entende que as decisões não devem partir de um lado só. ''Temos opiniões que precisam ser respeitadas''. As conquistas da mulher, para Cláudia, permitiram outros ganhos, além do poder de decisão nas compras: a realização pessoal e profissional.
O marido de Cláudia, o juiz do trabalho Paulo da Cunha Boal, vê com bons olhos a evolução da mulher em todos os aspectos da sociedade. Ele brinca dizendo que em sua casa é ''pau-mandado'', mas não se incomoda com as decisões tomadas pela esposa. Mesmo tendo morado sozinho por muitos anos, sem ter o costume de dividir opiniões, ele destaca que a participação da mulher é positiva para o relacionamento do casal. ''Na estrutura da sociedade atual, onde ela participa do sustento da família, é preciso que também partilhe ou mesmo tome decisões. Ao homem cabe adaptar-se a essas mudanças''.q


