Plugados na liberdade
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 05 de dezembro de 1997
Francelino França 
O I Congresso de Adolescência do Cone Sul, realizado recentemente em Londrina, reuniu especialistas brasileiros, chilenos e argentinos para discutir a saúde e o comportamento dos adolescentes. Uma das presenças mais significativas no evento foi a da médica pediatra, psiquiatra da infância e adolescência Marília de Freitas Maakaroum, de Belo Horizonte (MG).
Em uma de suas conferências, a especialista abordou o tema O Adolescente Frente ao Terceiro Milênio - A Imagem Virtual, dando um toque filosófico as suas colocações. Segundo a especialista, a relação cada vez mais estreita com a tecnologia acaba influenciando na formação do adolescente.
Afinal, ele acabou ganhando com tantos estímulos visuais e auditivos. O mundo virtual está ficando real para muita gente. Eles recebem doses maciças e diárias de informações globalizadas nas mais diferentes vertentes: MTV, moda, computador, Internet, língua inglesa, literatura, cinema, TV a cabo, intercâmbio cultural. Enfim, um mundo virtual, expandindo completamente o horizonte dos jovens.
Cesar AugustoA médica Marília de Freitas Maakaroum é
hebeatra, especialista que cuida das
transformações físicas e dos problemas
emocionais inerentes à adolescência
Diante de tantos estímulos há uma evidente expansão da mente através do conhecimento. O jovem ganha capacidade de se comunicar com o mundo inteiro, em diferentes línguas. O mundo está com um dialeto novo. Vivemos em uma verdadeira Greenville, define Marília.
Influência da mídia Segundo a especialista, o adolescente vive um tempo de mudanças de referencial em relação às informações. Elas não são transmitidas mais somente pela escola, e sim, pela mídia. O jovem perdeu o conhecimento orientado. A escola funcionava como provedora daquilo que ele ia fazer com as informações. Hoje, informa a médica, consome-se indiscriminadamente, sem juízo de valor.
Do ponto de vista mental foi um ganho, mas o conhecimento que o adolescente está adquirindo é sincrético, confuso. O bem e o mal são consumidos com o mesmo entusiasmo, argumenta. Até a família está sem saber como se portar diante de tanto conhecimento, não há experiência prévia sobre muitos fatos que acontecem hoje. Tudo é muito novo.
Diante da infinidade de opções que diariamente o jovem contemporâneo precisa fazer, ele se sente meio perdido. A família nem sempre sabe oferecer uma orientação adequada. No opinião da hebeatra, atualmente tudo é limitado ao que a tecnologia faz. O homem se adaptou a tudo o que progresso deu a ele. Há uma evidente aceitação do que está restrito à máquina, prossegue.
A modernidade deu de presente aos filhos a liberdade, entre os aspectos mais importantes. Uma ressalva, no entanto, é que a liberdade é usada como se fosse libertinagem. A veracidade disso pode ser constatada nas estatísticas dos acidentes de trânsito e homicídios. Muitos jovens morrem pela má interpretação do sentido de liberdade, pondera.
Os pais foram reprimidos num processo patriarcal de educação. Na hora de educar os filhos permitem que eles sejam livres. Essa geração de filhos vai chegar ao verdadeiro conceito de liberdade quando chegar à idade adulta, pois eles terão consciência dos seus limites, define. Os pais projetam seu desejo de liberdade no desejo de liberdade dos filhos. Segundo Marília, os adolescentes de hoje estão pedindo até onde posso ir?.
Com a globalização crescente há uma perda significativa dos limites culturais e geográficos. O distanciamento diminuiu. A tendência hoje é o comportamento individualista e não atender ao coletivo. A consciência coletiva deve emergir da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948. Porque todos temos direito a pensar, escrever a expressar livremente nosso pensamento, analisa.
Se não for assumida a consciência coletiva de liberdade, nos transformaremos em escravos dos países ricos através da globalização. Somos um povo diferenciado, o Brasil tem características de mundo. Apenas com a busca da igualdade social sobreviveremos neste planeta. A razão técnica deverá ser substituída pela razão humanizada, filosofa a psiquiatra.Arquivo FolhaUm universo de informações se descortina para o
jovem a cada clic do mouseOs adolescentes do
ano 2000 vão chegar
mais perto do verdadeiro
conceito de liberdade.
Esta geração está
aprendendo a ter
consciência dos
seus limites


