Pimentinhas merecem atenção especial
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sexta-feira, 09 de novembro de 2007
Ricardo Westin<br>Agência Estado 
Com apenas três anos de idade, Logan (nome tirado de um dos personagens da série de super-heróis X-Men) dá preocupação de gente grande para sua mãe, Amanda Vanessa Mendes.
Ele é o tipo de criança que não leva desaforo para casa. Responde aos pais, fala palavrão, bate em alguns coleguinhas que se atrevem a desafiá-lo. ''Alguns devem ter medo dele'', diz a mãe, que confessa tomar antidepressivos para suportar a situação.
Travessa quando pequena, Amanda hoje sente-se culpada. ''Fui uma criança e uma adolescente terrível. Cheguei a ser presa quatro vezes por brigar na rua'', conta.
Segundo a psicóloga clínica Carolina Nikaedo, mestre em distúrbios do desenvolvimento pela Unidade Presbiteriana Mackenzie e profissional da Equipe de Diagnóstico e Atendimento Clínico (Edac), distúrbios de conduta (como mordidas, pontapés, palavrões e outras coisas que fazem seu filho parecer um viking ao lado dos coleguinhas de escola) costumam aparecer por volta dos 5 ou 6 anos de idade. E nem sempre a culpa é dos pais.
''Às vezes, a agressividade é motivada por algo que aconteceu na própria escola, como uma exclusão do grupo ao qual a criança pertencia ou um desconforto físico'', explica a psicóloga Yara Sayão, do Serviço de Psicologia Escolar da Universidade de São Paulo (USP).
Pimentinhas como Logan podem não ser exatamente os queridinhos dos professores, mas também merecem a atenção deles. Se o comportamento alterado começa a se manifestar na escola, é imprescindível que professores estejam atentos às preocupações da criança. Resolvidos os problemas, eles poderão ser lembrados no futuro com muitas gargalhadas.
Valentões em crise
Crianças que aprendem a bater podem, desde pequenas, fazer parte de um dos extremos do bullying - situação caracterizada por atos agressivos e repetitivos de uma criança contra outras. Neste caso, é preciso acolher não só a criança que sofre com a intimidação. ''A criança que ridiculariza a outra também é vítima. Às vezes, a melhor defesa é o ataque'', explica a psicóloga Carolina Nikaedo.
Pediatra e editor do site Observatório da Infância (www.observatoriodainfancia.com.br), Lauro Monteiro diz que a criança que precisa demonstrar a força e o poder sobre outra mais fraca em frente aos outros, seguramente é alguém que tem problemas - seja na escola, seja em casa.
''Os professores, principalmente, devem se preocupar em reconhecer este fenômeno na escola e se conscientizar de que ele faz mal a todos'', diz. Alunos que sofrem gozações e os que praticam bullying devem ser tratados.
Essa história pode ser a do seu filho
Como uma criança lida com o bullying? Ela não lida? A situação é difícil mesmo para adolescentes. Foi pensando em dar um apoio aos pequenos que sofrem com intimidações de colegas mais fortes que a escritora e publicitária Sandra Saruê escreveu ''E se fosse com você - Uma história de bullying'' (Ed. Melhoramentos, R$ 16). No livro, um menino estudioso é perseguido pela turma de valentões. Ao mesmo tempo, a gordinha da classe é desprezada pela líder das ''Barbies''. Ninguém vira o melhor amigo de ninguém no final, mas pelo menos um aprende a respeitar o outro. Segundo a autora, o título é uma sugestão para os que praticam o bullying. ''Colocar-se no lugar dos que sofrem é sempre legal para chegar a um acordo'', diz a escritora, que falou sobre o assunto nesta miniestrevista à Agência Estado.
AE - Por que um livro sobre o bullying?
Sandra- Sempre contei histórias que se passaram com os meus filhos. Em ''Quero ser meu irmãozinho'', falei sobre a experiência do mais velho, que sentiu ciúme quando o irmão dele nasceu. Em ''A poltrona vazia'', contei como eles lidaram com a perda do avô. E, agora, quis falar sobre algo comum entre crianças que recebem apelidos, sofrem com comunidades na internet e, com isso, ajudar outras crianças a dar a volta por cima. O bullying é silencioso. Muitas crianças acham que é um mico contar para o professor que são vítimas de gozações, mas não é. Elas devem contar para um adulto. O intuito do livro é ajudar essas crianças a não mais se calarem.
AE - Você sofreu bullying?
Sandra - Quando tinha 13 anos, era gordinha e tinha espinhas. Recebia alguns apelidos.
AE - Você conseguiu dar a volta por cima?
Sandra- Um dia desses, fui a uma dessas festas de reencontro da turma e todos os valentões e bonitonas estavam carecas e gordas. E eu, que havia sofrido bullying, era uma das poucas que malhava e tinha um emprego legal. (risos).
AE - Por que será?
Sandra- Acho que quem não faz parte da turminha dos populares acaba buscando outras maneiras de ser legal, assim como o protagonista de ''E se fosse com você'', que é fã do Thomas Edison. (Agência Estado)


