Pílula revolucionou o universo feminino
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quinta-feira, 13 de maio de 2010
Vera Fiori<br> Agência Estado 
Quando a primeira geração da pílula anticoncepcional surgiu, em 1960, nos Estados Unidos, o clima entre os americanos era de euforia com a retomada do crescimento econômico. De 1960 a 1965, a década ainda tinha um certo sabor de inocência. De 1966 a 1968, o estado de espírito que anteciparia os libertários anos 1970 foi marcado pelo movimento hippie, uso de drogas, revolução sexual e contestação de valores sociais. De carona com os Beatles, é possível sentir o divisor de águas. O começo da década soava como a ingênua ''Love Me Do'' e o final, mais ácido, com a psicodélica ''Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band''. Tanto lá como cá, uma geração de jovens surgia disposta a contestar os valores de uma sociedade moralista e conservadora.
Em meio às mudanças comportamentais, vinha a primeira geração da pílula anticoncepcional. Daí em diante, a mulher se tornaria sujeito maior da história. Segundo a escritora e feminista Rose Marie Muraro, de 80 anos, a pílula desencadeou uma verdadeira revolução. ''Pela primeira vez, em dois mil anos, a mulher pôde desvincular a maternidade do sexo. No começo dos anos 70, houve uma grande ''corneação'' por parte das mulheres e os homens ficaram deprimidos'', provoca Rose. Antes disso, afirma, falar em orgasmo da mulher era pecado. O sistema patriarcal ''matava'' as mulheres que tinham orgasmo por considerá-lo perigosíssimo. ''A pílula foi o grande avanço, que permitiu a autonomia, o estudo e o controle do corpo.''
Além de desfrutar do prazer sem culpa, analisa Rose, mulheres de classes menos favorecidas tiveram a opção de ter menos filhos. ''Vimos a mudança da relação de gêneros, além de conquistas como maior participação no mercado de trabalho e no espaço público'', sintetiza.
Em 1969, apenas 8% das mulheres em idade reprodutiva usavam a pílula anticoncepcional no Brasil. O avanço da medicina esbarrava no tabu em torno do assunto, associado à liberdade sexual feminina numa sociedade conservadora. Na época, o método era receitado apenas para as mulheres casadas e com autorização dos maridos.
Em 1970, em plena ditadura militar, o Ministério da Saúde chegou ao cúmulo de condicionar a compra do medicamento à retenção da receita pelo farmacêutico, mapeando, assim, as consumidoras. Estima-se que, naqueles anos, mais de 3 milhões já tomavam o contraceptivo com regularidade. Apenas em 1978 a pílula passou a ser distribuída gratuitamente pelo governo.
O mundo hoje
Estudo realizado pelo Instituto Guttmacher, organização de saúde sexual dos Estados Unidos, revela que 80 milhões de mulheres utilizam a pílula anticoncepcional no mundo. Aponta ainda que, nas Américas Central e do Sul, cerca de 16 milhões de mulheres fazem uso da pílula, sendo que as brasileiras usam os contraceptivos orais durante um período maior - entre dois e cinco anos. O levantamento mostra também que a taxa de contracepção nas Américas Central e do Sul aumentou consideravelmente, de 15% em 1969, para mais de 70% em 2000.
De acordo com os indicadores da Fundação Carlos Chagas, a participação da mulher no mercado de trabalho (o que inclui aquelas em busca de emprego), em 1976, era de 28,8%. Já em 2007, este porcentual foi de 43,6%. Em 2009, segundo o IBGE, o índice do trabalho feminino saltou para 45,1%
Aborto
Aos 48 anos, Luiza Brunet, primeira modelo a sair na capa do jornal ''Le Figaro'', ainda arrasa nas passarelas do samba e da moda. Filha de lavrador cearense e de uma dona de casa carioca, e segunda de uma prole de seis, aos 12 anos parou de estudar para ajudar a família. Trabalhou como babá e em outros serviços domésticos até conhecer seu primeiro marido. ''Casei-me aos 16 anos'', conta a modelo, que não podia falar de sexo em casa, pois o assunto era tabu. ''A gente aprendia na rua, com as amigas.''
Por um descuido, engravidou aos 17 e teve de escolher entre a carreira ou a gravidez. Recorreu, então, ao aborto. ''Doeu muito, porque venho de uma família grande e fui moldada para casar e ter filhos. Nessa idade, não se tem uma consciência das consequências do sexo sem proteção. E acho que é assim com os jovens até hoje.''
A decisão foi difícil e deixou marcas. ''Eu estava começando a receber convites de trabalhos e tenho certeza de que, se tivesse tido um filho naquela idade, não seguiria a carreira de modelo.''
Após essa experiência, a pílula passou a ter um papel fundamental para Luiza Brunet. Assim, pôde planejar sua família no segundo casamento. Com a filha Yasmin, também modelo, 21 anos, a história é bem diferente. ''Desde pequena ela sempre foi muito curiosa. Perguntava sobre menstruação, sexo, gravidez. A conversa com os pais sempre foi aberta. Centrada na carreira, mora em New York com o namorado e pensa em ter filhos mais tarde'', conta a mãe.


