Sexta-feira, 20h30, no centro da cidade, duas dezenas de pessoas, na maioria homens, se reúnem em uma sala para conversar. A cena poderia muito bem ser um happy hour, mas nem um único copo de cerveja ou aperitivo é visto sobre a mesa principal, só uma garrafa de café e água. Isso porque a reunião é dos Alcoólicos Anônimos e as pessoas que estão ali são dependentes de bebida que buscam alguma maneira de se verem livres do vício. Em um ambiente amigável, eles ouvem e contam histórias, dão suas opiniões sobre a necessidade de parar de beber e refletem sobre textos especializados no assunto.
Mas esses 20 participantes são uma parcela mínima da população que tem problemas com a bebida. Segundo estatísticas médicas, 20% dos homens e 10% das mulheres no Brasil fazem uso abusivo do álcool. ''Isso é um problema de saúde pública. Muitas pessoas morrem em decorrência do uso de bebida alcoólica, embora os números não sejam claros quanto a isso. Várias doenças são decorrentes do consumo excessivo de álcool, mas quando a pessoa morre com esse problema, ninguém diz que foi pela bebida'', diz o psiquiatra Paulo Fernando Nicolau, que há quase 30 anos trabalha com dependentes químicos.
Consequências Dentre as doenças causadas pelo álcool estão cirrose, gastrite, úlcera, inflamação do esôfago, fragilidade cardíaca, hipertensão, arritmia cardíaca, dores nos nervos, convulsões, demência e impotência sexual. ''Cerca de 33% dos pacientes em enfermarias públicas apresentam alguma complicação de saúde em virtude do uso excessivo de bebida alcoólica. Além das doenças, existe também o problema de acidentes de trânsito, homicídios, com 50% dos casos causados pela bebida, e os suicídios, com cerca de 25% deles relacionados ao álcool'', garante Nicolau.
Ele explica que o álcool acaba não assustando por ser uma droga lícita e de consumo frequente na nossa sociedade. ''Em todo lugar que você vai existe algum tipo de bebida alcoólica. Em reuniões de família, batizados, sempre tem pelo menos uma cervejinha'', comenta. O problema dessa atitude é que os jovens começam a beber muito cedo, geralmente com o consentimento dos pais. ''A maioria dos dependentes começou a beber ainda na pré-adolescência, por volta dos 13, 14 anos de idade. E isso facilita o surgimento da dependência precoce, que é mais difícil de ser tratada. Sem falar na questão de que a adolescência é uma época de escolhas importantes para a vida e o jovem acaba perdendo interesses e oportunidades'', alerta.
Perigo no trânsito Outro problema do consumo de álcool por jovens e adolescentes é a imprudência no volante. O comandante e capitão da 2 Companhia de Polícia Rodoviária de Londrina, Sérgio Dalbem, diz que não existem números exatos sobre a relação de acidentes causados pelo consumo de álcool, uma vez que nem sempre é possível fazer os testes, mas acredita-se que boa parte deles ocorre por esse motivo. ''Nas estradas, muitos acidentes acontecem nos finais de semana e próximos de regiões de chácaras de lazer, quando as pessoas estão retornando para casa. Outro fato é que várias vezes encontramos latas e garrafas dentro dos carros e as principais vítimas fatais são pessoas jovens'', afirma.
Evitar que os jovens comecem a beber é uma tarefa difícil para os pais. Segundo Nicolau, a repressão e a vigilância não funcionam. ''O melhor é sempre o bom exemplo e o diálogo aberto'', ensina. Pela necessidade de contestação e rebeldia dos adolescentes, o abuso do álcool é algo normal para eles. O médico lembra da necessidade de os pais alertarem para perigos como riscos de perda de concentração e memória e dificuldade em largar o vício. ''Quando a pessoa já está dependente, o tratamento não é fácil. As primeiras semanas são de síndrome de abstinência, com tremores, mal-estar, dor muscular e transpiração excessiva. E como é fácil e normal beber, muitas pessoas depois acabam voltando ao vício. O ideal é cuidar desde sempre e reconhecer a dependência'', diz. n

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