Perigo nas brincadeiras
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quinta-feira, 01 de setembro de 2005
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Filhos de pais separados, Marcos (*), 11 anos, mudou de escola há pouco tempo. Por ser mais educado e sensível que os outros garotos da sala, logo virou o centro das atenções. No mau sentido. Começou a ser tratado de bichinha pelos colegas. A atitude incomodava tanto que Marcos não quis mais frequentar a escola e só mudou de opinião depois de uma conversa com seus pais, os pais dos outros alunos e a coordenação do colégio.
Histórias como essa acontecem todos os dias nas salas de aula. Um aluno com alguma característica específica ou sem motivo aparente vira alvo de brincadeiras maldosas e até de agressões dos demais. Conhecido hoje por bullying (do inglês tiranizar, oprimir, ameaçar), esse tipo de brincadeira sempre existiu. O que preocupa educadores, pais e psicólogos é o grande número de casos de bullying que ocorrem atualmente nas escolas.
Para a psicóloga Marta Helena Haddad Parker Guterres, a sociedade em que vivemos está mais individualista, mais competitiva e as crianças são consequência desse contexto social onde as famílias estão inseridas. Passam muito tempo sozinhas e não sabem direito como se relacionar com outras crianças e, portanto, com suas diferenças. ''Junto a isso temos a falta de preparo dos pais em impor limites e transmitir valores. A escola, por sua vez, tem a preocupação de ministrar conteúdos para o vestibular acentuada pela idéia de que estes conhecimentos é que irão inseri-las no mercado de trabalho'', argumenta ela.
''Dentro desse panorama, nem a família nem a escola conseguem trabalhar, de maneira eficaz, as questões que dizem respeito à formação ética, e isso incentiva e facilita o bullying'', explica. Segundo ela, existe uma fase da vida, na infância, em que a perversidade é aceitável. Exemplos disso são atitudes maldosas de crianças pequenas com animais ou agressivas com irmãos por qualquer motivo. ''Isso pode acontecer quando falamos de crianças muito pequenas. Cabe aos adultos ensinar o que é certo e o que é errado e conter atos que são inaceitáveis para o convívio em sociedade'', diz.
No caso específico do bullying, a psicóloga lembra que é importante prestar atenção tanto no agredido quanto no agressor. ''Acredito que ninguém nasce bom ou ruim, Nossa maneira de ser é construída através da história dos nossos relacionamentos familiares, sociais e ambientais. O aluno que comete bullying não faz isso por maldade. Ele está mostrando que algo não está bem e que ele precisa de ajuda. Geralmente são crianças com problemas em casa, dificuldades de aprendizado. Para se sentirem superiores, eles humilham os demais e os tornam inferiores'', afirma.
Para quem sofre com o bullying, as consequências variam e podem ir de uma simples timidez até uma baixa auto-estima e problemas como anorexia, envolvimento com drogas e raiva excessiva. ''Isso vai depender de cada pessoa e de como os apelidos e brincadeiras a atingem e incomodam. Uma menina que passa a infância sendo chamada de gorda pelos colegas pode desenvolver anorexia nervosa, por exemplo'', comenta.
Seja qual for o resultado, escola e família precisam trabalhar juntas para evitar a prática do bullying e ajudar os alunos envolvidos. A psicóloga lembra da importância dos adultos nessas ocasiões. ''A criança que sofre com o bullying não sabe se defender sozinha. Ela precisa saber que não adianta revidar ou responder com agressão; é preciso conversar, ser firme sem ser violento. Para quem comete, a melhor saída também é o diálogo. Perguntar as razões e explicar o mal que isso causa no outro é melhor do que castigar e brigar. Para todos os outros, é necessário trabalhar as diferenças na sala de aula, com dinâmicas de grupo e atividades extras'', ensina.
(*) Nome fictício


