Perigo na boca
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sexta-feira, 08 de novembro de 2002
Célia Guerra<br> Reportagem Local 
De adorno de jovens rebeldes ou de tribos que protestam contra tudo e todos, os piercings se transformaram em acessórios de moda fashion. Os alfinetes que viraram jóias deixaram de ser referência de comportamento alternativo para se tornar objeto de desejo de quem anda na vanguarda da moda.
Espalhadas pelos mais diversos, e curiosos, pontos do corpo, a jóia continua como símbolo de expressão, de charme, de sensualidade, mas também de grave risco à saúde do corpo, especialmente quando o adereço é colocado na língua. Pesquisa inédita divulgada recentemente pela Universidade Santo Amaro (Unisa) constata que o objeto pode causar desde simples infecções até um câncer.
O trabalho foi coordenado pelo professor Artur Cerri, vice-presidente da Associação Paulista de Estomatologia, que realizou biópsias nos locais onde os piercings estão aplicados. ''Todos os casos analisados, sem exceção, apresentam algum tipo de alteração celular. Em alguns deles, o tecido se mostrava no limite de sua tolerância, e poderia evoluir para doenças mais graves como o câncer'', informou.
Segundo o estudo, o uso do piercing na língua pode causar mau hálito, hemorragias, inflamações, feridas e perda de paladar. Os pesquisadores não descartam a possibilidade de o usuário do acessório contrair também outras doenças mais sérias. Artur Cerri alerta ainda que a aplicação da jóia em clínicas que não seguem padrões de higiene previstos por lei podem levar a pessoa a contrair hepatite e até Aids.
Agressão O professor de estomatologia no curso de Odontologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Antonio Carrilho Neto, que coordena o Departamento de Estomatologia da Associação Odontológica Norte do Paraná (AONP), não conhece o estudo feito pela Unisa, mas considera muito agressivo o uso do piercing na língua, pois pode provocar um trauma crônico de várias intensidades. ''Essas lesões, mesmos pequenas, podem desencadear prejuízos à saúde''.
O coordenador da pesquisa destaca que a boca é uma cavidade extremamente vascularizada, sensível e repleta de microorganismos. Carrilho completa a informação dizendo que a língua, além do grande número de vasos sanguíneos, é também o órgão com maior incidência de músculos no corpo humano. Pela quantidade de movimentos que ela realiza só para engolir e falar, por exemplo, não há como evitar atritos com um objeto instalado nela. ''Não é como um brinco colocado na orelha que fica parado. O piercing provoca uma agressão diária em um tecido que não foi preparado para isso'', observa. As consequências, como mostra a pesquisa, podem se tornar ainda mais graves quando associadas ao consumo de cigarro e álcool.
Carrilho explica que não é o tamanho de uma lesão que pode provocar um câncer na boca, mas a permanência da agressão sempre num mesmo ponto. ''Qualquer ferida ou caroço que demore mais de 20 dias para desaparecer precisa ser examinado para saber o que ocorre''.
Pela possibilidade de prejuízos que o adorno oferece, o professor diz que é melhor evitar o uso. ''Toda pessoa tem livre arbítrio para expressar seus pensamentos. Que o faça então de forma saudável, sem oferecer riscos à sua integridade física''.n


