De acordo com a psicóloga Fátima Comte, na gravidez acontecem várias mudanças hormonais para que a mãe possa dar ao bebê todos os nutrientes necessários ao seu desenvolvimento. Quando o bebê nasce, todo esse processo hormonal se modifica abruptamente. ‘‘A mulher fica mais triste, quieta, às vezes chora. É um estado normal, fisiológico. Usamos o termo ‘blues’ para definir essa sensação, que atinge as mães no terceiro dia após o nascimento do filho e desaparece após alguns dias’’, explica.
Segundo a psicóloga, todas as mães passam por essa situação, mas algumas delas nem chegam a perceber. ‘‘Mulheres acostumadas a lidar com stress, que têm mais resistência às dificuldades e às frustrações, não se dão conta de que estão vivendo isso’’, observa Fátima, que avisa: apesar de fisiológico, esse quadro é um terreno fértil para a depressão. ‘‘Quanto maiores as perdas que a mulher tiver com a chegada do bebê, maiores as chances de desenvolver o problema’’, informa.
Fátima enumera algumas características que podem contribuir para que a depressão pós-parto se instale: mães perfeccionistas, com muito sentimento de responsabilidade ou com dificuldades de dar-se, com pouca habilidade social, baixa auto-estima e auto-confiança, com problemas conjugais e econômicos, sozinhas (sem parceiros), sem uma rede de apoio (familiar e creche) e também mães muito jovens, para as quais as perdas com a vinda de um filho são mais evidentes.
Outros fatores se juntam ao contexto para desencadear a depressão: a incompetência para se obter as coisas das quais se necessita e a falta de controle da situação. ‘‘Muitas vezes, a mulher diz ao marido que precisa de ajuda, que acha que não vai dar conta de cuidar do filho. E acaba ouvindo: isso é frescura’’, observa a psicóloga.
Fátima explica que a depressão pós-parto é mais comum após o nascimento do primeiro filho porque a mulher tem que encarar o fato de que sua vida mudará para sempre, pois não há como voltar atrás. ‘‘Nesse momento, ela sente toda a responsabilidade pela vida do filho. E se culpa por não querer ficar com a criança, pois sempre ouviu que a mãe ama o filho logo de cara e que, de agora em diante, terá que estar sempre disponível para ele’’, diz Fátima, observando que o amor de mãe não é instantâneo, ele vai se desenvolvendo, e o apego, se intensificando com o tempo. ‘‘A dor de perder um filho com seis dias de vida é diferente da dor de perder um filho de seis anos’’, compara.
Segundo Fátima, fora do Brasil, os cuidados com a depressão pós-parto são bem maiores. As mulheres ficam mais tempo no hospital por causa dos programas de apoio à maternidade. ‘‘Lá elas aprendem a cuidar do bebê e tiram todas as dúvidas com médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e com as outras mães’’, conta a psicóloga, que recomenda a busca por ajuda psicológica o quanto antes, pois ela pode prevenir uma série de problemas: familiares, conjugais e de vínculo afetivo mãe-filho, além de um quadro depressivo mais grave. ‘‘O prognóstico é muito bom’’, garante. (R.V)

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