Perdas e ganhos
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de maio de 2008
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Motivo de alegria e contentamento para os pais, o bebê adorável que acabou de nascer é fonte de insegurança e sofrimento para o irmão mais velho. Diante da nova dinâmica familiar, cabe aos adultos agir com sensibilidade e firmeza para evitar que o primogênito sofra demasiadamente com o ciúme.
O psicanalista e palestrante Aílton Bastos explica que a postura da família, desde a gravidez, é fundamental para que a criança sinta-se segura com a chegada do bebê. Por isso, brincadeiras do tipo agora você vai perder o colo e os brinquedos não devem jamais ser mencionadas. Essa fala traz implícita a ameaça de perder o amor da mãe. E a criança ainda não tem capacidade de abstração para entender que é uma brincadeira, diz.
Bastos explica que até mesmo os adultos, em grupos sociais diversos, sentem-se ameaçados com a chegada de um novo elemento. Na família, o novo elemento é pequeno, fofinho e de repente se transforma no centro das atenções, disputando espaço com a criança que, até o momento, era tratada como o príncipe que podia tudo. Para o filho mais velho, a chegada do irmão é como se fosse uma traição, comenta o psicanalista.
Ele lembra que na época do parto, a mãe se ausenta de casa e volta diferente, sem condições de pegar o filho no colo e cheia de restrições a atividades que antes eram aceitas como normais. A criança começa a ouvir não sobe, não mexe, não grita e todo tipo de negação. É o primeiro grande contato com o não. E, para ela, o bebê é o grande culpado por todas essas mudanças, explica.
As reações que resultam dessa nova dinâmica são previsíveis. O mais velho começa a querer chamar a atenção, fazer carinhos exagerados no menor e até mesmo vivencia regressões como voltar a fazer xixi na cama ou querer mamadeira e chupeta. O grande cuidado para minimizar o sofrimento que sempre vai existir é respeitar o espaço de quem já está na família, orienta.
A melhor maneira de fazer isso, mesmo no momento da chegada da outra criança, é se desdobrar para manter atenção exclusiva ao primogênito. A mãe tem que reservar alguns períodos para ficar apenas com o filho mais velho, deixando que outras pessoas peguem o bebê, diz.
Tirar o berço e comprar uma caminha para o maior, muito próximo do nascimento do irmão, também não é recomendável. Ele não vai achar que ganhou uma cama, mas, sim, que perdeu o berço, compara. Outra dica é orientar as visitas a não ignorarem a criança maior, mas incluí-la nas conversas. Mostrar fotos de quando ela era bebê, no colo, ou mesmo da mãe grávida, também ajuda a evidenciar que o mais velho teve todos os cuidados que a mãe dedica ao caçula.
Para Bastos, a atenção deve vir cercada de limites. O espaço dos filhos precisa ser respeitado de acordo com a idade. Não se pode tratar o maior como adultinho e nem como bebê, explica.
Segundo ele, o caminho acertado para a harmonia é sempre o equilíbrio. Porque se os limites preparam para a saúde mental, ensinando a tolerar as frustrações, a atenção destinada aos filhos evita ciúmes, competitividade e previne a baixa auto-estima.


