Motivo de alegria e contentamento para os pais, o bebê adorável que acabou de nascer é fonte de insegurança e sofrimento para o irmão mais velho. Diante da nova dinâmica familiar, cabe aos adultos agir com sensibilidade e firmeza para evitar que o primogênito sofra demasiadamente com o ciúme.
  O psicanalista e palestrante Aílton Bastos explica que a postura da família, desde a gravidez, é fundamental para que a criança sinta-se segura com a chegada do bebê. Por isso, brincadeiras do tipo ‘‘agora você vai perder o colo e os brinquedos’’ não devem jamais ser mencionadas. ‘‘Essa fala traz implícita a ameaça de perder o amor da mãe. E a criança ainda não tem capacidade de abstração para entender que é uma brincadeira’’, diz.
  Bastos explica que até mesmo os adultos, em grupos sociais diversos, sentem-se ameaçados com a chegada de um novo elemento. Na família, o ‘‘novo elemento’’ é pequeno, fofinho e de repente se transforma no centro das atenções, disputando espaço com a criança que, até o momento, era tratada como ‘o príncipe que podia tudo’. ‘‘Para o filho mais velho, a chegada do irmão é como se fosse uma traição’’, comenta o psicanalista.
  Ele lembra que na época do parto, a mãe se ausenta de casa e volta diferente, sem condições de pegar o filho no colo e cheia de restrições a atividades que antes eram aceitas como normais. ‘‘A criança começa a ouvir ‘não sobe’, ‘não mexe’, ‘não grita’ e todo tipo de negação. É o primeiro grande contato com o ‘não’. E, para ela, o bebê é o grande culpado por todas essas mudanças’’, explica.
  As reações que resultam dessa nova dinâmica são previsíveis. O mais velho começa a querer chamar a atenção, fazer carinhos ‘‘exagerados’’ no menor e até mesmo vivencia regressões como voltar a fazer xixi na cama ou querer mamadeira e chupeta. ‘‘O grande cuidado para minimizar o sofrimento – que sempre vai existir – é respeitar o espaço de quem já está na família’’, orienta.
  A melhor maneira de fazer isso, mesmo no momento da chegada da outra criança, é se desdobrar para manter atenção exclusiva ao primogênito. ‘‘A mãe tem que reservar alguns períodos para ficar apenas com o filho mais velho, deixando que outras pessoas peguem o beb꒒, diz.
  Tirar o berço e comprar uma caminha para o maior, muito próximo do nascimento do irmão, também não é recomendável. ‘‘Ele não vai achar que ganhou uma cama, mas, sim, que perdeu o berço’’, compara. Outra dica é orientar as visitas a não ignorarem a criança maior, mas incluí-la nas conversas. Mostrar fotos de quando ela era bebê, no colo, ou mesmo da mãe grávida, também ajuda a evidenciar que o mais velho teve todos os cuidados que a mãe dedica ao caçula.
  Para Bastos, a atenção deve vir cercada de limites. ‘‘O espaço dos filhos precisa ser respeitado de acordo com a idade. Não se pode tratar o maior como ‘adultinho’ e nem como beb꒒, explica.
  Segundo ele, o caminho acertado para a harmonia é sempre o equilíbrio. Porque se os limites preparam para a saúde mental, ensinando a tolerar as frustrações, a atenção destinada aos filhos evita ciúmes, competitividade e previne a baixa auto-estima.

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