Pequenos tiranos
Pequenos tiranos
Especialistas garantem que a falta de amor e de diálogo deixa as crianças mais agressivas e violentas
ReproduçãoPesquisa indica que 5% das crianças que estudam em escolas particulares do Rio de Janeiro e de São Paulo apresentam comportamento agressivoAdemir Fernandes
Agência Estado
Falta de amor. É esta a principal causa da agressividade das crianças, segundo o pesquisador americano Robert Blum, da Universidade de Minnesotta. Ele baseia sua conclusão numa pesquisa feita com 12 mil meninos, a pedido da Clínica Mayo, e é apoiado pelos psicanalistas Fritz Redl e David Wineman, autores dos livros Crianças Agressivas e O Tratamento de Crianças Agressivas. A educadora brasileira Tânia Zagury, autora de Sem Padecer no Paraíso, também defende a necessidade do amor na educação dos filhos, mas observa que a excessiva liberalidade pode levar à criação de filhos tiranos.
Segundo ela, se acreditarem na importância do amor e na boa intenção do diálogo, os pais estarão dando o melhor de si para criar um clima de harmonia na família. A tese é compartilhada pelo psiquiatra infantil Haim Gruspun que, no entanto, tinha outra opinião sobre o tema. Já acreditei que bater desse resultados, disse. Hoje digo que não se deve bater nunca numa criança.
É o que ele explica nas novas edições de seu livro Autoridade dos Pais e Educação da Liberdade, no qual modifica uma opinião expressa há cerca de 20 anos. Eu acreditava que o castigo físico fazia parte de todo um contexto cultural, no qual até os adultos apanhavam, afirma. Mas ele mudou de idéia depois de fazer algumas pesquisas com seus clientes. Gruspun disse, em entrevista à Agência Estado, que quase todos os pais consultados contaram que batiam nos filhos em momentos de irritação e cansaço, nunca pelo ato da
Arquivo FolhaO psiquiatra e escritor Roberto Shinyashiki defende uma educação baseada no diálogocriança.
Diálogo Em Pais e Filhos: Companheiros de Viagem, o psiquiatra Roberto Shinyashiki defende a tese de que os pais podem manter um diálogo enriquecedor com os filhos, esclarecendo muitas dúvidas e colaborando para que as crianças cresçam sem aquele sentimento de frustração ou agressividade. Tantos pais mal-amados e neuróticos se sentem no direito de dizer como é a vida, como se deve agir e pensar, afirma. Eles também não sabem.
A questão se torna um tanto mais delicada no caso dos pais separados. Para o professor de psicologia Bernardo Jablonsky, autor de A Crise do Casamento, os pais separados têm mais dificuldades para impor limites e, geralmente, os chamados pais-de-fim-de-semana contribuem para a tirania dos filhos ao fazer todas as suas vontades. Como convivem mais tempo com as crianças, as mães sentem-se obrigadas a castigar e, na maioria dos casos, acabam alimentando um sentimento de culpa.
A agressividade dos filhos também preocupa as autoridades chinesas, que sentem agora os efeitos de uma campanha lançada há alguns anos, estimulando a criação do filho único. Segundo analistas internacionais, a rigorosa política de natalidade deu margem a uma geração de rapazes agressivos, com sérias dificuldades de relacionamento. Para tentar contornar o problema, o governo de Pequim criou mais de 20 mil escolas para dar cursos destinados a ensinar os pais a educar os filhos únicos.
Só nos últimos cinco anos, nos Estados Unidos, ocorreram pelo menos 250 assassinatos cometidos por crianças e adolescentes - embora as leis americanas sejam mais rigorosas do que em qualquer outra parte do mundo. No Brasil, uma pesquisa indica que cerca de 5% das crianças que estudam em escolas particulares do Rio e de São Paulo demonstram um comportamento agressivo nas relações com colegas e funcionários. E mais: embora só agora as notícias sobre a violência nas escolas tenham se tornado mais frequentes, o problema é antigo, especialmente nos grandes centros.
Classe média Pesquisas divulgadas pelo Grupo de Planejamento e Pesquisa (GPP), e pela Máxima Comunicações, do Rio, mostram que a questão é mais grave nas áreas pobres, onde já foram registrados, inclusive, casos de estupro de alunos pelos colegas. A mesma pesquisa indicou que as crianças vêem mais violência na TV do que nas ruas, e que muitas delas acabam alimentando o desejo de ter uma arma para seguir o exemplo dos pais.
Nos Estados Unidos, o maior problema está na classe média. Boa parte dos assassinos têm entre 11 e 15 anos de idade, recebem generosas mesadas e usam as melhores roupas de grife. Mesmo assim, observa o pesquisador Robert Blum, falta amor por parte dos pais, e esse é um dos principais fatores da agressividade. A criança que não se sente amada, querida e cuidada pelos pais pode tornar-se violenta, escreveu. Essa situação piorou a partir dos anos 60, quando mais mães entraram no mercado de trabalho, ficando mais de
12 horas longe dos filhos. E a negligência também contribui para a aagressividade das crianças.
Na mesma linha de raciocínio, os psicanalistas americanos Fritz Redl e David Wineman defendem a tese de que a criança que sente ódio não consegue amar porque desconhece o que é o amor. Mas tanto eles quanto outros especialistas reconhecem que também há casos relacionados com problemas neurológicos, muitos deles até hereditários. Neste caso, é importante prestar atenção nas mudanças
bruscas de conduta.
À parte as discussões sobre a falta ou não de amor como justificativa para tantos atos violentos, juristas e educadores são unânimes num ponto, com relação ao Brasil: é preciso fazer com que o menor infrator sinta o temor da pena. Na opinião do jurista Paulo José da Costa Jr., a lei deveria ser mais rigorosa para que, ao pensar na prática criminosa, o menor saiba que poderá responder por seus atos, que não é mais irresponsável, graças a um privilégio
legal absurdo e desatualizado.
O privilégio a que ele se refere fixa a responsabilidade penal a partir dos 18 anos de idade, no Brasil, enquanto a capacidade de julgar e escolher governantes é reconhecida desde os 16 anos.
Como castigar
Quando a disciplina é rompida, os pais devem usar castigos de forma efetiva, nunca de maneira exagerada. O primeiro castigo deve ser a bronca.
Se a bronca não funcionar, parta para a retirada de privilégios. Por exemplo: não deixe assistir a um programa de TV naquele dia. Evite um castigo longo e penoso que o próprio pai não cumpra, como proibir TV a semana toda.
Faça com que a criança reflita sobre o que cometeu de errado, deixando-a pensar por alguns minutos.
Reaja com rigor caso os irmãos briguem. Procure mostrar o perigo dos castigos físicos; uma coisa é aquela briguinha caseira, que pode ser resolvida em questão de minutos, e outra é levar essa agressividade para fora de casa, pois neste caso a criança corre o risco de se envolver em briga de gangues.
Até os 3 anos de idade, a agressividade é considerada natural; basta aos pais ensinar a criança a não morder ou bater nos amigos.
Na fase dos 3 aos 7 anos, os pais precisam começar a impor limites básicos, mas sem ameaças ou surras, pois atitudes como essas podem causar ressentimentos; nessa faixa de idade, é preciso dar educação e carinho à criança.
A faixa dos 7 aos 10 anos de idade é considerada uma das mais delicadas, pois aí a criança já tem mais noção do que pode ou não pode fazer; os casos de teimosia devem ser reprimidos de forma pacífica, mais na base do diálogo do que dos tapas.





