Em julho deste ano, a Câmara Brasileira da Livro divulgou os números da pesquisa inédita Retrato da Leitura no Brasil, realizada com 5.980 pessoas com mais de 14 anos, em 46 capitais brasileiras. O resultado mostrou que o brasileiro adulto ainda lê pouco, mas com as crianças o cenário é diferente: dos dez livros de ficção que encabeçam a lista dos mais vendidos, cinco são destinados ao público infanto-juvenil.
O carro-chefe desse interesse literário precoce é a coleção ''Harry Potter'', que conta a história de um menino mago e já vendeu 600 mil exemplares no Brasil, desde seu lançamento em abril. Entre os autores nacionais, Luís Fernando Veríssimo aparece em 6º lugar com ''As Mentiras que os Homens Contam'', uma obra também muito apreciada pela garotada.
No Brasil, a literatura infantil também apresenta um outro lado positivo: a qualidade. Duas escritoras brasileiras, Ana Maria Machado e Lygia Bojunga Nunes já ganharam a Medalha Hans Christian Anderson, considerado o Nobel da literatura infantil pelo conjunto de suas obras. Um prêmio pouco valorizado no Brasil, mas muito reconhecido no exterior.
Os números parecem não mentir: quando a tarefa é ir às livrarias à procura de leitores infantis, os nomes pipocam na boca das balconistas. Todos conhecem, pelos menos, meia dúzia. Entre eles estão os irmãos Bruno Eduardo e Filipe Mateus Sefrin Saladini, com 8 e 6 anos, respectivamente. Nas livrarias, eles são conhecidos como os ''irmãos leitores''. Filhos da juíza do Trabalho, Ana Paula Sefrin Saladini, Bruno e Filipe gostam de ler ficção e aventura. ''Não gosto de romance'', antecipa Filipe. Ansioso, Bruno afirma: ''Meu livro preferido é Harry Potter - O Prisioneiro de Azkaban, tem 300 páginas e eu li em duas semanas''.
Incentivo Ana Paula acredita que o gosto dos filhos pela leitura é hereditário. ''Eu e meu marido gostamos muito de ler e sempre cultivamos o hábito de ler histórias infantis para o Bruno e o Filipe desde quando eles ainda não haviam sido alfabetizados. Além disso, todas as vezes que vou à livraria levo eles comigo, acho importante para desenvolver o amor pelo livro e o prazer pela leitura'', conta Ana Paula, que na fase de estudante foi balconista de livraria.
Admiradora de Monteiro Lobato, Rhayra Erick de Souza, 10 anos, é uma devoradora de livros e revistas. No momento, ela está lendo ''A Ilha Perdida'', de Maria José Dupré. ''Eu leio de tudo, até receitas. E só gosto de assistir a filmes com legendas porque tenho que ler''. Rhayra lê no ônibus, no carro e até andando, e só tira os olhos do livro quando avista uma livraria. ''Não consigo passar em frente a uma livraria ou biblioteca sem entrar'', conta.
Indecisão A paixão da garota pelos livros é tão grande que até preocupa a mãe, a fonoaudióloga Sandra Erick Pozzobon: ''Às vezes, eu acho que ela tem um pouco de dificuldade de se relacionar com outras meninas da idade dela porque o nível de conhecimento e informação que ela tem é muito superior'', diz a mãe com um misto de orgulho e preocupação. Apesar da pouca idade, Rhayra tem um discurso organizado e fala com destreza sobre qualquer assunto, até sobre política internacional. ''Quando crescer, quero ser escritora de ficção e de livros infantis'', informa.
Fábio Baroni de Osti, 12 anos, acabou de ler ''Harry Potter - O Cálice de Fogo'', o último da coleção. ''Gosto de ler comédia, aventura e suspense, mas não curto romance água-com-açúcar. Quando vou ao Catuaí, fico parado no corredor entre a Bom Livro e a Ri Happy, não consigo me decidir se gosto mais de brinquedos ou de livros'', revela. Fábio, que aprendeu a ler aos 4 anos, devora revistas e enciclopédias. ''Gosto de ler sobre ecologia, comportamento, saúde e coisas ligadas à natureza''. Ele não tem dúvida do que quer ganhar de presente no Dia das Crianças: o livro ''As Mentiras que os Homens Contam'', de Luis Fernando Veríssimo.
Agradecimento: Livrarias Bom Livro e Arles.

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