Todo mundo, ao menos uma vez na infância, já bateu o pé e se recusou a ir à escola. Esse comportamento, quando esporádico, é perfeitamente normal. Mas, quando se repete por vários dias sem que tenha havido uma quebra evidente da rotina da criança, é sinal de que alguma coisa realmente não vai bem com ela, e talvez essa resistência em frequentar a escola seja uma forma de pedir socorro.
‘‘As razões dessa atitude são muito sutis’’, indica a psicoterapeuta Gabriela Casellato. Gabriela explica que, em primeiro lugar, é preciso olhar para o grau de comunicação existente entre os pais e a criança. ‘‘Ela pode estar passando por algum problema que não consegue apontar.’’
‘‘Precisamos ter claro que a criança gosta da escola, até porque não é só sala de aula; há o pátio, o recreio, as brincadeiras, os amigos’’, observa Helena Samara, psicóloga e diretora da Escola Móbile de São Paulo. ‘‘Se ela se nega a frequentá-la, realmente há algum problema’’, conclui.
Helena nota que há uma tendência inconsciente da família de procurar um motivo dentro da escola. ‘‘É natural que se olhe diretamente para a escola, procurando colegas que estejam chateando ou uma professora que chame a atenção da criança.’’
Para a diretora, a dificuldade de aprendizagem é uma das possibilidades do problema estar na sala de aula. ‘‘Afinal, é muito chato ser cobrado por algo que não se pode dar.’’ A cobrança citada por Helena pode se estender para outras áreas muito exigidas às vezes, pela própria criança –, como o futebol durante o recreio, um padrão de beleza ou a posse de um objeto da moda.
Adotadas Nessas situações, incide uma discriminação que, com a agravante de não ser levada a sério (isso, quando notada), vai minando a base da criança. Quem, por exemplo, gostando muito de jogar bola, não se sentiu mal por ser chamado pelos colegas de perna-de-pau, ou, tendo os cabelos crespos, não foi motivo de chacota por parte dos colegas de cabelos lisos? ‘‘Crianças adotadas, por exemplo, ficam mal por não terem histórias de família para contar’’, pontua Gabriela.
Obviamente, as causas que levam uma criança a não querer ir à escola são tão diversas quanto o universo infantil. Mas é provável que, numa análise mais profunda, elas estejam dentro do próprio lar o que nem sempre soa agradável aos ouvidos familiares.
‘‘Às vezes, os pais se sentem ofendidos’’, diz Cláudia Tricate, diretora do Colégio Magno, de São Paulo, apontando uma das dificuldades para que se descubra o motivo do problema. ‘‘É muito mais fácil passar a questão para a frente, dizer que o problema está ‘aí’, não ‘aqui’.’’ Uma atitude comum numa cultura em que é hábito delegar à escola a função intransferível (no máximo, compartilhável) de formar e educar um filho.
Especialistas concordam que é preciso atenção e cuidado dentro de casa, mesmo quando aparentemente o problema está na escola. É junto à família que a criança constrói, dia após dia, sua base de confiança nela e nos outros. Se ela sente-se segura, provavelmente passará por problemas na escola ou em qualquer outro lugar sem maiores dificuldades.
Insegurança Na outra mão, se há algo dentro de casa que balance sua base, ela se sentirá fragilizada e vulnerável. ‘‘Por exemplo, a criança que é motivo de piada geralmente é insegura, e não conseguiu colocar um limite na brincadeira. E isso se torna um ciclo: quanto mais chacota, mais insegurança’’, salienta a psicóloga Luciana Mazorra.
A criança pode estar sentindo-se insegura por vários motivos. ‘‘Em situações de conflito na família, a criança pode querer ficar em casa para os pais não brigarem’’, exemplifica Gabriela. ‘‘Algumas vezes, a resistência não é ir à escola, mas a afastar-se de casa. Ela sente-se ameaçada e procura estar sempre presente, com medo de que haja alguma mudança na sua ausência’’, complementa Helena.
Luciana observa que, às vezes, o foco do problema não é uma questão temporária, como uma briga entre pais, e tampouco está na criança. ‘‘Ela pode ter uma relação de ansiedade e dependência com os pais, que não lhe transmitem confiança suficiente para que frequente a escola’’, indica. ‘‘Às vezes,
eles simplesmente não conseguem deixar o filho ir.’’
Nesse caso a insegurança da criança torna-se perceptível em diversas situações, como na conquista de novas amizades e outros momentos que impliquem afastamento dos pais. ‘‘Ela não confia que irá se afastar e eles continuarão ali, amando-a’’, explica Luciana. Não que seja uma atitude consciente dos adultos. Às vezes, esse tipo de comportamento é passado de geração a geração e quanto a criança torna-se pai ou mãe, naturalmente relaciona-se com o filho do modo como seus pais relacionavam-se com ela.
Em defesa dos pais, Luciana destaca ainda que há adultos, a despeito da atenção e preocupação com os filhos, sem ferramentas (como sensibilidade e conhecimento) suficientes para entender o problema, e crianças que simplesmente não desenvolveram recursos próprios para criar segurança.

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