Paternidade virtual
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de agosto de 2005
Fabiana Caso<br>Agência Estado 
Não são as palavras que podem definir a relação do navegador e economista Amyr Klink com suas três filhas: as gêmeas morenas Tamara e Laura, de 7 anos, e a pequena Marina Helena, loirinha, de 4. Basta passar cinco minutos na sala com eles para sentir a proximidade entre pai e filhas. As três correm para o seu colo, observando os desenhos de remos que ele faz. Este é remo de Paraty, diz o expert no assunto, cuja coleção de diferentes modelos ocupa seu escritório. Elas observam, cochicham no ouvido do pai e caem na gargalhada. Com todo seu tamanho quase 1,90 metro Amyr Klink vai parar embaixo da mesa com a caçula, brincando. O que mais gostam de fazer com ele? Bagunça, respondem as três em coro.
Enquanto eu cuido das questões práticas do cotidiano, o Amyr as leva para descobertas. Nos momentos de lazer, eu busco tranqüilidade e ele, diversão. Coloca as três na canoa, mostra uma estrela do mar viva, as leva para andar em trilhas descalças ou para nadar à noite, comenta a elétrica Marina Bandeira Klink, companheira de Amyr há 12 anos, que, além da rotina da casa, também organiza eventos.
Um pai que passa muito tempo ausente valoriza mais a qualidade dos momentos, tentando compensar isso com uma dedicação maior, acrescenta Marina. Desde que as filhas nasceram, Amyr fez duas grandes viagens, de seis meses cada uma. Nas primeiras, Tamara não podia ver imagens suas na TV que caía no choro. Quero que o papai volte e quero agora, dizia ela. Marina, às vezes, tinha de recorrer a histórias, como a de que o coelho da Páscoa traria o pai navegador de volta. Hoje, elas entendem melhor o que ele faz, diz a mãe, acrescentando que elas acompanharam toda a construção do barco Paratii 2. Mas isso não impediu que, na última chegada do velejador a Paraty, litoral sul fluminense, no mês de abril, elas tenham interpretado mal uma brincadeira. O Amyr deu uma volta de 360 graus com o barco na chegada, e eu disse: Olha, o papai está voltando para a Antártica. Foi um berreiro geral, lembra Marina.
Quando não está viajando, o navegador faz palestras por todo o País e escreve livros. Eu amo o que faço e a Marina sempre apoiou meus projetos, pensando antes no barco que na casa. Mas, quando estou aqui, agendo o horário das palestras de uma forma que possa estar mais com a família, pondera Amyr, com seu jeito calmo e sério. Gosto de ir à escola delas, entrar. Conheço pais que moram na esquina e nunca foram.
Nas temporadas da Antártica, um dos maiores aliados da comunicação familiar é um rádio amador, que Amyr mostra com carinho. Na última viagem quando o navegador fez uma volta ao mundo pelos pólos em 76 dias, sem escala havia diversos equipamentos de ponta, como o telefone Inmarsat-M (cuja chamada custa 8 dólares por minuto), sistema de transmissão de voz e dados por satélite e, é claro, o laptop, onde o navegador carrega fotos e vídeos das pequenas. Só preciso saber a posição do barco para ficar tranqüila, diz a mulher, Marina, que, na última viagem, passou por um aperto de 15 dias, quando o rastreador por satélite parou de enviar informações. Apesar do desespero, tudo voltou ao normal após a passagem do navegador pelo Oceano Índico. Não podemos contar com a comunicação. O mais importante é o que está no coração.


