Paternidade e adultescência
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Erica Shimamura<br> Reportagem Local 
Quem já não parou para observar homens e mulheres vestidos com peças que mais parecem ter saído do guarda-roupa dos filhos adolescentes? Ou ainda, deparou-se com adultos de meia-idade frequentando as baladas em que predomina o público universitário? Para a psicóloga Maria Elizabeth Barreto de Pinho Tavares, mestre e doutora em Psicologia Clínica, as situações descritas acima são cada vez mais comuns.
A especialista explica que enquanto o casal tiver filhos pequenos, pai e mãe serão vistos pela sociedade como jovens adultos. Na medida em que a prole vai crescendo, atingindo a adolescência, talvez pela primeira vez os cônjuges se deparem com a questão de que não são mais tão jovens, que estão caminhando para outra fase da vida.''E isso provoca um certo desconforto'', analisa a psicóloga. ''Muitas vezes, a pessoa entra em choque consigo mesma, e com o intuito de tentar mostrar-se mais jovem, ou resgatar a juventude que não tem mais, é onde acaba tentando se igualar ao filho adolescente, e assim pode estar instalado um problema'', alerta.
De acordo com a pesquisadora, esses adultos são chamados de pais adultescentes, ou seja, são pessoas que vinham apresentando uma maturidade satisfatória, mas a partir do nascimento dos filhos começam, em algum momento, a sentir-se mal e podem apresentar até mesmo depressão, a ponto de deixar de usufruir coisas da vida por considerar que só estariam autorizados na juventude. Elizabeth entende esse quadro como a paralisação do desenvolvimento do adulto, que pode entrar num processo de regressão.
Outra situação bastante comum apontada pela especialista acontece quando os genitores afirmam querer ser amigos de sua prole, o que à primeira vista não significa uma situação conflituosa. É preciso estar atento somente aos exageros. ''Às vezes acontece de os pais ficarem se comportando como adolescentes, achando que isso vai ajudar o filho a ver o pai como amigo. Ocorrem casos de pais que frequentam as mesmas baladas dos filhos, que chegam a consumir as mesmas substâncias, bebem juntos, alguns até fumam maconha com o filho. Ao invés de contribuir para a saúde física e mental do adolescente, ao contrário, esse tipo de atitude é prejudicial'', ressalta.
A respeito dessa questão, a psicóloga avisa que é sempre bom lembrar de que dentro de uma família existe uma hierarquia, que pais e filhos não são iguais, e que o filho, mesmo depois de crescido, precisa continuar sabendo que pai e mãe estão hierarquicamente em uma posição superior. ''Uma coisa é fatal: se a gente acredita na necessidade de pai e mãe funcionarem como modelos, para que os filhos possam se desenvolver de uma forma saudável, imagine o que pode acontecer para os filhos desses pais, que não evoluem emocionalmente de uma forma satisfatória?'', questiona.
Ação e reação
Como possível consequência, a pesquisadora afirma que existe a probabilidade de que o filho de pais adultescentes não amadureça da forma esperada, já que haveria a necessidade de os pais terem um certo equilíbrio mental para poder favorecer o desenvolvimento de seus descendentes. ''Caso contrário, é muito provável que encontremos uma geração de filhos imaturos de pais adultescentes'', reflete.
Segundo a psicóloga, o adulto nesta situação precisa em primeiro lugar identificar a crise e se dar conta de que está tentando viver como um adolescente. ''A maioria que se comporta desse modo o faz de maneira insconsciente'', diz.
Compreender que cada fase da vida tem seu brilho, beleza e glamour também faz parte do caminho para uma vida mental saudável. ''Muitas vezes, os pais não conseguem se dar conta disso. Comportar-se de uma forma adulta é importante para poder servir de modelo para os filhos, para que consigam ver que crescer é bom, que a maturidade traz benefícios. Se os pais ficam se comportando como adolescentes, como é que o filho vai conseguir sonhar, ambicionar outras coisas na vida?'', alerta.
Sem exageros
Antes que alguém generalize a questão, a psicóloga prefere esclarecer quando o caso pode ser considerado um problema. Para ser adulto, não é preciso se fantasiar de velho, explica.
A questão é quando o adulto não quer se desfazer da turma jovem. Neste caso, os amigos vão passando por outras etapas, frequentando outros ambientes, e esses adultescentes continuam convivendo com os mais jovens. Assim, a pessoa não consegue acompanhar os amigos da própria idade, e acaba trocando o grupo social sempre pelos mais jovens. Não é errado se vestir de uma forma jovial, o problema é ficar mentalmente funcionando como se fosse um eterno adolescente, excplica. (E.S.)
Termômetro
Às vezes, o próprio adolescente pode ser o sinalizador de que algo não vai bem. Os filhos reclamam porque os pais querem estar muito juntos. Aí é hora de os adultos olharem para si mesmos para perceber até que ponto estão cuidando do filho ou querendo conviver com ele e sua turminha. Se os pais se derem conta de que estão se colocando mais como amiguinhos dos filhos adolescentes já não é um bom sinalizador, aponta.
Segundo a psicóloga, no consultório alguns adolescentes chegam a reclamar de encontrar nas baladas os tiozinhos, ou o pai de alguém, e até tentando paquerar ou ficar com jovens que fazer parte do grupo dos filhos. Esse tipo de situação acaba constrangendo esses jovens, conta. (E.S.)


