Quem já não parou para observar homens e mulheres vestidos com peças que mais parecem ter saído do guarda-roupa dos filhos adolescentes? Ou ainda, deparou-se com adultos de meia-idade frequentando as baladas em que predomina o público universitário? Para a psicóloga Maria Elizabeth Barreto de Pinho Tavares, mestre e doutora em Psicologia Clínica, as situações descritas acima são cada vez mais comuns.

A especialista explica que enquanto o casal tiver filhos pequenos, pai e mãe serão vistos pela sociedade como jovens adultos. Na medida em que a prole vai crescendo, atingindo a adolescência, talvez pela primeira vez os cônjuges se deparem com a questão de que não são mais tão jovens, que estão caminhando para outra fase da vida.''E isso provoca um certo desconforto'', analisa a psicóloga. ''Muitas vezes, a pessoa entra em choque consigo mesma, e com o intuito de tentar mostrar-se mais jovem, ou resgatar a juventude que não tem mais, é onde acaba tentando se igualar ao filho adolescente, e assim pode estar instalado um problema'', alerta.

De acordo com a pesquisadora, esses adultos são chamados de pais adultescentes, ou seja, são pessoas que vinham apresentando uma maturidade satisfatória, mas a partir do nascimento dos filhos começam, em algum momento, a sentir-se mal e podem apresentar até mesmo depressão, a ponto de deixar de usufruir coisas da vida por considerar que só estariam autorizados na juventude. Elizabeth entende esse quadro como a paralisação do desenvolvimento do adulto, que pode entrar num processo de regressão.

Outra situação bastante comum apontada pela especialista acontece quando os genitores afirmam querer ser amigos de sua prole, o que à primeira vista não significa uma situação conflituosa. É preciso estar atento somente aos exageros. ''Às vezes acontece de os pais ficarem se comportando como adolescentes, achando que isso vai ajudar o filho a ver o pai como amigo. Ocorrem casos de pais que frequentam as mesmas baladas dos filhos, que chegam a consumir as mesmas substâncias, bebem juntos, alguns até fumam maconha com o filho. Ao invés de contribuir para a saúde física e mental do adolescente, ao contrário, esse tipo de atitude é prejudicial'', ressalta.

A respeito dessa questão, a psicóloga avisa que é sempre bom lembrar de que dentro de uma família existe uma hierarquia, que pais e filhos não são iguais, e que o filho, mesmo depois de crescido, precisa continuar sabendo que pai e mãe estão hierarquicamente em uma posição superior. ''Uma coisa é fatal: se a gente acredita na necessidade de pai e mãe funcionarem como modelos, para que os filhos possam se desenvolver de uma forma saudável, imagine o que pode acontecer para os filhos desses pais, que não evoluem emocionalmente de uma forma satisfatória?'', questiona.

Ação e reação

Como possível consequência, a pesquisadora afirma que existe a probabilidade de que o filho de pais adultescentes não amadureça da forma esperada, já que haveria a necessidade de os pais terem um certo equilíbrio mental para poder favorecer o desenvolvimento de seus descendentes. ''Caso contrário, é muito provável que encontremos uma geração de filhos imaturos de pais adultescentes'', reflete.

Segundo a psicóloga, o adulto nesta situação precisa em primeiro lugar identificar a crise e se dar conta de que está tentando viver como um adolescente. ''A maioria que se comporta desse modo o faz de maneira insconsciente'', diz.

Compreender que cada fase da vida tem seu brilho, beleza e glamour também faz parte do caminho para uma vida mental saudável. ''Muitas vezes, os pais não conseguem se dar conta disso. Comportar-se de uma forma adulta é importante para poder servir de modelo para os filhos, para que consigam ver que crescer é bom, que a maturidade traz benefícios. Se os pais ficam se comportando como adolescentes, como é que o filho vai conseguir sonhar, ambicionar outras coisas na vida?'', alerta.


Sem exageros
  Antes que alguém generalize a questão, a psicóloga prefere esclarecer quando o caso pode ser considerado um problema. ‘‘Para ser adulto, não é preciso se fantasiar de velho’’, explica.
  A questão é quando o adulto não quer se desfazer da turma jovem. Neste caso, os amigos vão passando por outras etapas, frequentando outros ambientes, e esses adultescentes continuam convivendo com os mais jovens. Assim, a pessoa não consegue acompanhar os amigos da própria idade, e acaba trocando o grupo social sempre pelos mais jovens. ‘‘Não é errado se vestir de uma forma jovial, o problema é ficar mentalmente ‘funcionando’ como se fosse um eterno adolescente’’, excplica. (E.S.)


Termômetro
  Às ve­zes, o pró­prio ado­les­cen­te po­de ser o si­na­li­za­dor de que al­go não vai bem. ‘‘Os fi­lhos re­cla­mam por­que os ­pais que­rem es­tar mui­to jun­tos. Aí é ho­ra de os adul­tos olha­rem pa­ra si mes­mos pa­ra per­ce­ber até que pon­to es­tão cui­dan­do do fi­lho ou que­ren­do con­vi­ver com ele e sua tur­mi­nha. Se os ­pais se de­rem con­ta de que es­tão se co­lo­can­do ­mais co­mo ‘­amiguinhos’ dos fi­lhos ado­les­cen­tes já não é um bom ­sinalizador’’, apon­ta.
  Se­gun­do a psi­có­lo­ga, no con­sul­tó­rio al­guns ado­les­cen­tes che­gam a re­cla­mar de en­con­trar nas ba­la­das os ‘‘­tiozinhos’’, ou o pai de al­guém, e até ten­tan­do pa­que­rar ou fi­car com jo­vens que fa­zer par­te do gru­po dos fi­lhos. ‘‘Es­se ti­po de si­tua­ção aca­ba cons­tran­gen­do es­ses ­jovens’’, con­ta. (E.S.)

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