Foi manchete de jornal e motivo para muita conversa e especulações além da conta. Mas separações de casais em uma fase de vida mais madura, como a da prefeita Marta Suplicy e do senador Eduardo Suplicy, são mais comuns hoje do que se imagina. E refletem um aspecto da realidade do País, onde 50% dos casamentos não têm o chamado final feliz e acabam em uma audiência de divórcio. Nos Estados Unidos, esses números são maiores – e refletem uma tendência mundial: em cada cinco casais, um se separa nos cinco primeiros anos; dois depois de dez anos e um antes de completar 15 anos de união oficial.
‘‘É um percentual bastante grande, mas revelador’’, diz o psicanalista e terapeuta familiar Alexandre Rivero. ‘‘O que me chama a atenção, em casos que envolvem pessoas de notoriedade, é a mobilização da população em torno do assunto. Há uma inquietação. Parece que as pessoas estão falando de uma perda significativa para elas próprias. Parece que se projetam nessa situação. Não raras vezes, como se algo em sua vida também precisasse ser repensado e demandasse uma mudança, um gesto de coragem’’.
Para Rivero, é comum que, nessa etapa da vida de qualquer pessoa, haja um redimensionamento de valores e interesses, de filosofia existencial. São transformações perfeitamente naturais em função do seu desenvolvimento como profissional, como ser humano, mas que, muitas vezes, não são acompanhadas pelo seu parceiro. ‘‘Isso, necessariamente, não implica em deterioração do relacionamento. Significa apenas que mudou o foco das pessoas, de como elas percebem a vida. É um momento de crise, sim. Mas, é também um momento de renovação’’, diz o psicanalista.
Novos caminhos A cultura ocidental propõe um modo de vida linear e sequencial. ‘‘Você nasce, cresce, vai trabalhar, se casa e fim de papo. Esse é o enredo’’, aponta Rivero. ‘‘É rigorosamente comum que as pessoas não se dêem conta de que um casamento acontece todos os dias em pequenas percepções e atitudes, que é onde realmente a vida faz mais sentido. Esse cotidiano, mais do que repartido, precisa ser vivenciado e, sobretudo, compreendido pelo casal, sem que haja perdas individuais. A princípio, essa pode parecer uma equação complexa, mas inevitável para quem quer permanecer junto – e crescer equilibradamente’’.
Rivero chama a atenção ainda para um fato. Até o início do século, o tempo médio de vida do homem não ultrapassava os 45 anos. Hoje, a média está em torno dos 70 anos, com tendência a aumentar ainda mais. É natural que as pessoas, nessa segunda etapa da vida, tentem refazer seu percurso a partir das conquistas que fizeram, e mesmo dos sonhos que se perderam pelo caminho. É natural também que tracem novas metas e retomem uma ou outra aspiração que ficou para trás em função do trabalho, da sobrevivência econômica e, mais comum no caso da mulher, dos próprios filhos.
‘‘Há a retomada de alguns ideais adormecidos, sufocados talvez. Então, o cidadão volta a estudar, a tocar o instrumento que deixou no canto há anos, interessa-se em aprender a pintar. Enfim, mais do que se preocupar com as contas do fim do mês, pensa em produzir algo de qualidade, por aí. Quer deixar um legado para a sociedade, cravar sua marca, dar sua contribuição. Isso acarreta um desajuste no parceiro que, por exemplo, acha que já viveu tudo o que tinha para viver. Ou que, por seu turno, a partir das próprias experiências, envereda por outros caminhos que não são exatamente aqueles que a outra pessoa quer trilhar. É aí que se dá a ruptura...’’
Sem filhos A psicanalista Jacirema Cléia Ferreira destaca que essa cisão fica mais perceptível à época em que se dá ‘‘a debandada dos filhos’’. Na maioria das vezes, é o momento de se refazer a união. Até porque é muito comum a mecanização do dia-a-dia nas atribuições voltadas para suprir as necessidades de crescimento dos filhos.
Quando os garotos saem de casa para construir a própria vida, o casal já perdeu a identidade. ‘‘Um não tem mais nada a ver com o outro. Todos os interesses comuns do marido e da mulher eram voltados unicamente para as crianças e eles não se preocuparam em olhar um para o outro. Essa situação é mais comum do que se imagina’’. Segundo a psicanalista, a esperança de mudar está cada vez mais presente entre os maiores de 40. Ela conta a história de um casamento de mais de 40 anos, que acabou para surpresa – ou melhor, para espanto – dos amigos e familiares. Ao questionar os motivos da separação, alguém sempre lembrava ao marido e à mulher que haviam aguentado tanto tempo um ao outro que não fazia sentido uma separação àquela altura da vida. ‘‘Pois 钒, respondiam. ‘‘Já nos toleramos por tanto tempo que está mais do que na hora de cada um cuidar da sua vida’’.
‘‘É sempre perigoso generalizar’’, avalia Jacirema. Mas há quem prefira mesmo passar sozinho o que lhe resta de vida, e preservar a qualidade do seu dia-a-dia, longe dos altos teores de intolerância ou angústia inerentes a qualquer relacionamento desgastado. ‘‘Em muitos casos, apostam-se todas as fichas para se ter a garantia de tranquilidade e, sobretudo, de liberdade de fazer o que bem entender’’.
Outro condicionador dessa nova realidade é o grau de emancipação da mulher. Para a psicóloga Maria Consuelo Passos, essa contextualização é obrigatória para qualquer análise da situação. A mulher avançou por espaços antes unicamente reservados ao homem, seja no campo profissional, seja em aspectos comportamentais. Estudos comprovam que ela toma mais iniciativas enquanto o homem, geralmente, se mantém conservador,
‘‘Muito dessa nova família advém da풒, diz Consuelo, terapeuta familiar há 15 anos. ‘‘Busca-se hoje, por todas as formas, a felicidade. Essa procura é maior até mesmo do que o risco de não se preservar casamentos ou velhas normas da sociedade. E a mulher é o elemento dinamizador desse processo’’.
Sofrimento e perdas Algumas pesquisas apontam que, mesmo nessa situação limite, é a mulher quem na maioria das vezes toma a iniciativa de pedir a separação. ‘‘Mesmo tendo consciência de que uma separação implica em sofrimento e perdas, é mais comum que a mulher dê o start para uma mudança de atitude. Parece que o homem prefere protelar a situação, enquanto a mulher enfrenta com mais coragem o fim de um casamento, que na verdade já acabou e só se mantém à base de jogos neuróticos, e que não é felicidade, nem amor’’, diz Consuelo.
Em muitas ocasiões, aponta a psicóloga, acontece uma ‘‘re-significação’’ da relação. Muitos casais começam a namorar de novo – ‘‘é bem este o termo’’ – a partir dessa nova experiência, dessa nova realidade. Retomam o casamento a partir de um marco zero e com propostas renovadas. Um desafio e tanto, no seu entender, ‘‘perfeitamente compatível com os novos tempos em que vivemos’’.
Tempos esses, aliás, que diariamente desmistificam o casamento enquanto instituição. É uma comoção todas as vezes que um casal de notáveis se separa, como foi o caso de Marta e Eduardo Suplicy que, segundo a psicóloga, simbolizavam o casal ideal no imaginário coletivo – ricos, famosos, saudáveis e bonitos.
‘‘Não é por aí. O casamento é uma relação que deve unir duas pessoas enquanto se fazem felizes, enquanto perdurar a capacidade de compreensão, de apoio, de cumplicidade e afeto. Quando não, é mais saudável que cada um vá para o seu lado’’. Em última análise, como diz Chico Buarque nos versos da canção ‘‘Beatriz’’: ‘‘Para sempre é sempre por um triz’’.

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