Para relaxar com arte
Para relaxar com arte
Pintar, modelar, bordar ou simplesmente fazer tricô ou crochê funcionam como terapia para muitas pessoas
Jossânia Navolar
César AugustoAdélia Meda revela que nos momentos mais difíceis, quando precisa relaxar, usa a pintura como recursoNum mundo lógico e prático, em que a correria e a preocupação com a vida profissional toma quase todo o tempo das pessoas, dificultando o lazer e até o próprio convívio entre familiares e amigos, achar um tempo para si mesmo é algo no mínimo complicado. Exige ginástica cerebral na tentativa de conciliar compromissos e horários.
No entanto, em meio a essa crise de correria e stress, diante da necessidade urgente de prazer, as pessoas partem em busca de alternativas que possam dar um sentido à existência. Tudo isso sem grandes pretensões. A idéia inicial é apenas encontrar formas de recreação, de relaxamento e de desenvolvimento de potencialidades.
Milton DóriaPara Marisa Corzânego, a arte leva a refletir, o que a faz sentir-se como se estivesse meditandoPode ser música, pintura, bordado, modelagem, jardinagem, desenho, fotografia, aeromodelismo ou qualquer outra coisa em que as mãos fiquem ocupadas e a mente livre para criar. Aqui não há compromisso com ninguém, apenas consigo mesmo.
A professora Adélia Rotter Meda, 46 anos, faz pintura em porcelana e faiança há mais ou menos 15 anos. Adélia conta que sempre teve habilidades manuais, talvez até pelo exemplo de seu pai na infância. Ele sempre gostou de pintar. Quando éramos crianças, ele reunia os dez filhos e começava a trabalhar em suas telas. Nós ficávamos olhando ou fazendo alguma atividade ao seu lado. De vez em quando, ele nos deixava pintar também. Essa é uma das lembranças carinhosas que tenho da infância, revela.
Paulo WolfgangSegundo Waldete Esteves, a pintura possibilitou-lhe uma percepção mais apurada de tudo, enxergando a beleza dos detalhesTerapia ocupacional Adélia conta que suas habilidades manuais acabaram colaborando em suas atividades como professora. Quando dava aulas de literatura infantil e redação utilizava técnicas de desenho para a criança se soltar e conseguir escrever. Isso fazia uma diferença enorme. O retorno era visível, diz.
O interesse por porcelana e faiança nasceu quase ao acaso. Adélia conta que viu alguns trabalhos de porcelana moderna e resolveu procurar uma pessoa que pudesse lhe ensinar a técnica. De lá pra cá não parou mais. Nos momentos mais difíceis, quando preciso relaxar, uso a pintura como recurso, diz. Foi assim durante a cirurgia de um filho e durante os 20 dias que o marido passou no hospital se recuperando. Eu ficava lá fazendo companhia para ele e pintando, lembra.
César AugustoO bordado treina a paciência. A sensação é de tranquilidade e ao mesmo tempo expectativa com os resultados, diz Heraclea EraceliOrientação médica A comerciante Antônia Waldete Pistun Esteves, 47 anos, começou a pintar telas há cerca de cinco anos. A idéia surgiu depois de uma orientação médica. Como estava fazendo um tratamento rigoroso, com medicação pesada, correndo até risco de vida, o médico pediu que procurasse apoio psicológico. Foi quando surgiu a idéia da pintura.
Hoje, praticamente curada, Waldete acredita que a pintura é responsável por muitas coisas boas. Em função da medicação que tomava eu vivia irritada, nervosa e dormia muito mal. Agora aprendi a ser mais calma. A pintura possibilitou-me uma percepção apurada de tudo. Aprendi a ver beleza nas coisas aparentemente feias. E consigo colocar isso na tela, diz.
Segundo Waldete, a pintura é uma escada muito longa e ela reconhece que está apenas no primeiro degrau. Acredito que só o fato de mexer com as cores já relaxa. Atualmente busco o belo em todas as coisas, procuro ver o íntimo das pessoas, dou mais atenção, escuto mais, diz.
Meditação Os trabalhos manuais são vistos, comumente, como formas de descarregar tensão e ansiedade. É o que a professora de inglês Heraclea Eraceli, 22 anos, acredita que acontece quando está bordando. Ela já se interessou por tricô, mas agora prefere bordar, acha mais divertido. Cada novo bordado é sempre um desafio e fico na expectativa de como vai ficar vendo as imagens lindas dos modelos tirados de revistas, diz.
Além de relaxamento, o trabalho manual, na opinião de Heraclea, permite que a pessoa até se desligue um pouco do mundo e dos problemas a sua volta. A socióloga e professora Marisa Corzânego, 44 anos, concorda. E diz mais: Para mim é uma forma de autoconhecimento. Ela faz modelagem em argila há dois meses e está adorando. Já fiz pintura durante uma época, mas acabei parando. Na verdade, fazer esse tipo de atividade é um desejo antigo, mas nunca tinha colocado entre as prioridades, conta.
Para Marisa, mexer com argila é algo que vem do interior. Não que eu vá produzir, necessariamente, alguma coisa artística, mas é uma forma de expressão. A arte leva a refletir, é como uma espécie de meditação. As mãos ocupadas e a mente livre permitem isso, diz. Marisa não procurou a modelagem em argila deliberadamente para relaxar e esquecer o corre-corre do dia-a-dia, mas acabou conseguindo isso.





